Prazer, Gina


A temporada começa com um GP praticamente sem ultrapassagens, mas com a vitória de Sebastian Vettel sobre a Mercedes. Há, depois de algum tempo, um indício de que a temporada pode acabar em pizza, macarrão, vinho e cannoli.

Hamilton chegando no recorde de poles

Hora de a onça beber água na terra dos cangurus e coalas. Carros mais ferozes, mais ariscos, com barbatanas de opiniões distintas. Além desta fauna toda, a necessidade de trazer mais competitividade para a categoria, fizeram com que o primeiro GP da temporada 2017 fosse aguardado com muita ansiedade. Sim amigos, estamos em 2017.

O regulamento todo mexido e a mudança também na maneira com que os comissários julgariam as manobras dos pilotos, além de toda nova proposta estético-aerodinâmica para os carros formaram uma espécie de “kit-torcedor” que busca, agora sob nova direção da Liberty Media, uma nova aproximação do fã da categoria.

Mas a Mercedes nem quis saber de mudar o status quo dos últimos anos. Se bem que no último treino livre, Vettel colocou meio segundo sobre os carros prateados e Kimi Raikkonen estava à pouco mais de um décimo atrás destes, formando as quatro primeiras posições provisoriamente. E, numa mesma condição de carro, pneus e tal, Bottas foi mais rápido que Hamilton. Onze milésimos só, não deve ser nem um palmo de distância, mas foi. E Bottas também seria mais rápido, já nos treinos oficiais, no Q2.

Olha o álbum da classe.

Olha o álbum da classe.

Já que eu comecei falando dos treinos oficiais, aconteceu algo interessante em condições normais. Os cinco últimos colocados no grid eram de cinco equipes diferentes. Coube a Jolyon Palmer ser a mulher do padre da vez, de Renault, que teve ao seu lado a companhia de Lance Stroll, o canadense filhinho de papai que não consegue tirar do bom carro da Williams nada além de uma última fila.

Ainda falando dos eliminados, o repertório de sofrência da McLaren continua nas paradas de sucesso com mais hits do que nunca. Stoffel Vandoorne ficou na penúltima fila, logo atrás do Kevin Magnussen. Com Renault, Williams, McLaren e Hass, a outra equipe só poderia ser a Sauber a ser eliminada no Q1. No entanto, nenhum dos seus pilotos titulares foi eliminado na ocasião. Explico: Pascal Wehrlein, um dos titulares, percebeu que não tinha condições físicas ideais para disputar o GP logo após os treinos livres, em razão ainda do acidente sofrido na RoC, há dois meses. Em seu lugar entrou Antonio Giovinazzi, o regra 3 da equipe.

Naquele Q2 em que Bottas havia feito o melhor tempo, claro que Marcus Ericsson, com a outra Sauber, não iria longe, e foi o pior da segunda etapa do treino. Talvez um dos mais felizes no grid deveria ser o Esteban Ocon. Ano passado, pela falida Manor, ele vivia lá atrás do grid. Já na abertura da nova temporada, um décimo quarto lugar, agora de Force India. Porém, nada comparado ao seu companheiro de equipe, Sergio Pérez, que apesar de também ter sido eliminado no Q2, ficou muito perto de passar para a última parte do treino. Nico Hülkenberg, seu ex-companheiro de Force India, agora de Renault, ficou logo atrás de Pérez, em décimo segundo. Assim, o outro eliminado no Q2 foi Fernando Alonso, com a errática McLaren Honda.

Muito comportados estes meninos.

Muito comportados estes meninos.

No Q3, algumas observações importantes. O carro mais bonito da Fórmula 1, pelo menos, parece ser razoável em desempenho também, e proporcionou a Kvyat e Sainz Jr a oitava e nona posições no grid respectivamente. Seriam os piores do Q3, não fosse o acidente do piloto da casa, Daniel Ricciardo, que acabou dando uma escapada de pista e não conseguiu continuar no treino. Seu companheiro, Verstappen, conseguiu colocar o outro Red Bull em quinto lugar, a frente de um surpreendente Romain Grosjean, que ficou em sexto, a frente inclusive de Felipe Massa.

Com as duas primeiras filas dominadas pela Mercedes e Ferrari, era esperado a dobradinha de ambas em cada uma delas, com vantagem para a equipe alemã. No entanto, Sebastian Vettel conseguiu superar Valtteri Bottas no finalzinho, ficando ao lado de Hamilton. E isso teria um valor imenso na corrida.

A la Schumacher

Daniel Ricciardo não alinhou o carro na décima posição do grid e acabaria largando dos boxes. Ao sair para o grid, o carro do piloto da casa apagou e, por pouco, não o tirou também da prova. E, para aumentar o suspense, a primeira largada foi abortada. A ausência de Ricciardo causou certa dúvida no alinhamento de Sérgio Pérez quando o mexicano chegou na décima posicão. Outro motivo foi que o fiscal responsável pelo carro de Kvyat acionou o botão de atenção, indicando algum problema. Essa combinação de fatores fez com que Charlie Whiting agisse preventivamente.

Na largada válida, como que por milagre, ninguém se enroscou na curva 1, nem o Stroll (maldade). Mas foi por pouco. O enrosco ficou um pouco mais para frente, e foi entre Magnussen e Ericsson, porém, ambos voltaram. Enroscado mesmo estava o carro de Ricciardo, que ainda não tinha saído dos boxes e só conseguiu fazê-lo na segunda volta.

Daí saiu a única disputa real da prova. Pouco né?

Daí saiu a única disputa real da prova. Pouco né?

Os primeiros mantiveram suas posições. A mudança aconteceu na sexta posição, com Massa superando Grosjean. E, apesar de Hamilton não ter perdido a primeira posição, as primeiras voltas do inglês tiveram uma mancha vermelha bem grande no retrovisor. Era Vettel, que acompanhava o ritmo da Mercedes e se distanciava de Bottas e Raikkonen.
Tudo indicava que teríamos apenas uma parada de box para troca de pneus, que não proporcionaram o mesmo esfarelamento pela pista como nos anos anteriores, por um pedido da própria FIA. Quem inaugurou os serviços foi Stroll, porque deixou o pneu quadrado logo na primeira curva e reclamava de vibração exagerada no volante. Logo depois dele foi a vez de Vandoorne, que fez uma parada mais demorada porque, porque… porque o carro não saia mesmo.

O carro de Palmer apresentava problemas de freio e ele comunicava pelo rádio, dizendo que estava difícil continuar na pista. O engenheiro respondia para ele continuar, como se freio não fosse um problema grave. Usando meu lado do ombro que tem um carinha de vermelho segurando um tridente, eu acho que a Renault quer se livrar logo do pobre Palmer, que, todo mundo sabe, não tem só problemas de freio.

Ainda antes do abandono definitivo de Palmer, Grosjean entrou nos boxes com o carro soltando mais fumaça que Bob Marley e teve que deixar precocemente uma corrida em que marcaria pontos, com certeza.

Quando Vettel começa a se aproximar novamente de Hamilton, o piloto da Mercedes, que já acusava desequilíbrio do carro por causa dos pneus, foi para os boxes, mas parecia cedo demais. No retorno a pista, Hamilton encontrou pela frente o carro de Verstappen. Enquanto isso, com pista livre, Vettel voava, tentando ganhar tempo suficiente para voltar na frente do tricampeão do mundo quando fosse sua vez de parar nos boxes. Lembrando um outro alemão que correu pela mesma Ferrari há alguns anos, Vettel executou a manobra de maneira precisa. Vettel voltou imediatamente a frente de Verstappen e Hamilton e assumiria, depois das paradas de Bottas e Raikkonen, a liderança da prova.

Va bene

Para a torcida local, decepção com o abandono de Ricciardo. Por mais que tentasse, não era o final de semana do australiano.

E a prova não empolgava. A reação mais emocional foi a de Toto Wolff, da Mercedes, esmurrando a mesa quando Hamilton perdeu a posição para Vettel depois dos pits de ambos. Teve ultrapassagem? Eu me lembro da de Pérez sobre Sainz apenas. A maior velocidade dos carros por causa das mudanças aerodinâmicas deixou exposto de vez que vai ser difícil termos ultrapassagens. A aproximação do carro mais rápido sobre o rival a sua frente é mais difícil por causa da turbulência gerada pelo fluxo de ar de quem vai a frente. Como todo mundo freia no último instante por causa da eficiência assustadora dos freios (exceto os do carro do Palmer desta vez), perder o controle do carro é muito mais fácil.

Vettel lidera o campeonato, depois de muitos anos.

Vettel lidera o campeonato, depois de muitos anos.

Além disso, é notório como os carros estão exigindo do condicionamento físico dos pilotos. As conversas pelo rádio não são mais tão nítidas porque a maioria dos pilotos está mais ofegante ao volante. Exceto Raikkonen, que quando foi orientado pelo engenheiro de que devia poupar os pneus, nem deixou o coitado terminar de falar e foi monossilábico como sempre.

Vettel não era ameaçado, pois tinha mais de seis segundos para Hamilton, e ao final da prova, encontrou alguns retardatários que o ajudaram a consolidar a posição. Bottas até se aproximou mais perigosamente do companheiro de equipe. Era de se esperar que Hamilton e Bottas mantivessem as posições e evitassem um confronto, mas claro que todo mundo queria mesmo era ver o finlandês ignorar supostas ordens e já mostrar o cartão de visitas. Porém, isso não ocorreu.

Quem estava bravamente lutando por um pontinho, algo até heroico, era Alonso. Resistindo aos ataques de Ocon e Hülkenberg da forma como dava, o espanhol lutava com os adversários e também com o carros, nitidamente desalinhado. Acabou abandonando depois de ser ultrapassado pelos pilotos da Force India e Renault. Magnussen também abandonou no final.

E Sebastian Vettel venceu a corrida na estratégia da parada única, deixando os dois carros da Mercedes para trás, mas ainda no pódio. Raikkonen foi o quarto e ficou com a melhor volta da prova, seguido de Verstappen. Felipe Massa, em sexto, fez uma corrida solitária, mas pelo menos chegou na mesma volta do vencedor, ainda que mais de oitenta segundos atrás. Force India e Toro Rosso, com Pérez, Sainz, Kvyat e Ocon respectivamente, completaram os pontuadores da prova de abertura do mundial.

Na volta de retorno aos boxes, o público já tomou boa parte da pista e fez a festa junto dos pilotos, principalmente os tifosi, e Vettel agradeceu o tremendo trabalho da equipe com um italiano de dar inveja a Pavarotti.

Hamilton foi afável com o rival, o que não acontecia com Rosberg.

Hamilton foi afável com o rival, o que não acontecia com Rosberg.

Ao desligar dos motores…

– Stroll não fez nenhum grande papelão, mas a distância entre ele e Massa é vertiginosa. Na verdade, entre ele e o resto do grid. Torço para que não complique a vida de ninguém ao longo do ano;
– Rosberg, o atual campeão, não fez falta. Chato, né?;
– Bernie Ecclestone não estava lá também, pela primeira vez depois de décadas, e parece que não foi muito lembrado também;
– Dá para afirmar que a Ferrari é bem melhor que ano passado e está mais próxima da Mercedes este ano, mas ainda é cedo para cravar que a disputa vai ser cabeça a cabeça;
– Vettel batizou a sua Ferrari de Gina, e ela correspondeu ao primeiro olhar.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

1 Response

  1. lsussumu says:

    Como sempre um texto que consegue passar a emoção da Corrida. Parabéns Lauro!

    A formula 1 está começando a ensaiar uma volta em que existiam pilotos de verdade. Agora os pilotos precisam estar preparados e ter experiencia para poder andar rápido, não vai ser qualquer piloto de 17/18 anos que vai pegar um carro e ser campeão no 1 ano. Espero que daqui para frente ela evolua e se torne mais competitiva. Aguardo a volta do V8 pelo menos, sinto falta do ronco dos motores antigos.

    É triste ver que uma parceria entre Mclaren e Honda não está andando bem.

    A Ferrari está mais próxima da Mercedes. Mas como os carros estão em desenvolvimento constante, acredito que a mercedes aparecerá com alguma coisa para os próximos GPs.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *