O pulo do gato, de Bottas.


Na corrida em que prevaleceu o espírito olímpico onde o importante é competir, Valtteri Bottas finalmente escreve o nome na galeria dos vencedores da Fórmula 1, acompanhado no pódio pelos pilotos da Ferrari. Mas foi muito monótono.

Dobradinha da Ferrari no treino

Agora ficou mais que evidente a força da Ferrari. Se alguém tinha alguma dúvida ainda sobre o real potencial dos carros vermelhos, essa dúvida deve ter ficado lá nos alpes de Sochi.

Os carros de Vettel e Raikkonen dominaram o final de semana russo, não com muita sobra, mas dominaram sim. E o carro que apareceu mais incomodar os pilotos de Maranello foi a Mercedes, claro, só que o de Valtteri Bottas, o piloto mais rápido nos treinos do Bahrein há duas semanas. Hamilton era o mais discreto dos quatro, oscilando, mas nunca ameaçando as primeiras posições.

Depois de nove anos, os dois carros da Ferrari apareceram na primeira fila depois de um treino classificatório. Com o cronometro zerado, Vettel tirou a pole de Raikkonen por apenas cinquenta e sete milésimos de segundo. Mais cruel ainda deve ter sido a sensação de Bottas, que ficou à apenas trinta e seis milésimos de Raikkonen. Ou seja, menos de um décimo de segundo separando o pole do terceiro lugar. Só que isso seria bom para o finlandês do carro #77.
Duas filas definidas, o quinto lugar ficou com Daniel Ricciardo e o sexto com Felipe Massa. Um bom trabalho de ambos, com toda a certeza, mas distantes quase dois segundos do pole position. Era definido assim que teríamos um segundo pelotão já a partir da quinta posição. O companheiro de Ricciardo, Max Verstappen, abria a quarta fila, em sétimo, ao lado de Nico Hülkenberg, mais uma vez levando a Renault para um lugar que ela ainda não está tão firme para estar, em minha opinião.

Forte nos treinos, a Ferrari não repetiu o desempenho na corrida, mas está forte.

Forte nos treinos, a Ferrari não repetiu o desempenho na corrida, mas está forte.

E, fechando os que foram ao Q3, a quinta fila se apresentava toda cor-de-rosa, deslumbrante, poderosa… (opa, exagerei).

No meio do pelotão, os eliminados no Q2 foram Carlos Sainz, que já seria punido com três posições por causa do acidente com Lance Stroll, da Williams, no GP do Bahrein. Coincidentemente, ele ficou em décimo primeiro nos treinos, exatamente a frente de Stroll, mas acabaria largando em décimo quarto, atrás do próprio canadense, de seu companheiro e piloto da casa Daniil Kvyat, e de Kevin Magnussen, da Haas. Na décima quinta posição, Fernando Indy Alonso e o sofrível carro da McLaren.

Os primeiros a deixarem o treino e os últimos a alinharem seus carros no grid foram Jolyon Palmer, da Renault, Stofel Vandoorne, da McLaren, os dois carros da Sauber, com Wehrlein a frente de Ericsson, e Romain Grosjean, que fez um treino bem pior do que se esperava dele e do carro.

Nem uva passa, só Bottas

Volta de apresentação e Alonso começa a se queixar de algum problema no carro. Antes dos carros alinharem em definitivo para a largada, Alonso ficou parado na entrada dos boxes, desceu do carro e entrou no pit-lane a pé, emanando felicidade. A direção de prova optou por mais uma volta de apresentação.

Na largada pra valer, a aposta era grande para saber qual dos dois, Palmer ou Stroll, seria o primeiro. A deixar a prova, no caso. E deu Palmer.

Verdade seja dita, o maior culpado pelo acidente entre ele e Grosjean foi o francês da Hass, que forçou a ultrapassagem tentando recuperar posições depois do péssimo treino no sábado. Nem esquentou o cockpit e saiu catapultado, sem gravidade.

Um deja vu do maluco da primeira volta.

Um deja vu do maluco da primeira volta.

Só que o campeonato de verdade estava sendo disputado lá na frente, e tinha novidade.

Valtteri Bottas fez uma largada muito forte, se aproveitou do vácuo de Vettel e tomou a primeira curva na frente do alemão, enquanto o resto do grid tentava tomar formação.

Raikkonen quase perdeu a posição para Hamilton e para Verstappen, mas conseguiu se segurar em terceiro. E pareceu que o lado de dentro da pista, as posições pares, não favoreceram a largada de ninguém que estava por ali. A proximidade entre Raikkonen, Hamilton e Verstappen poderia ter acabado com a corrida de algum deles bem rápido, o que não aconteceu.

E o Stroll, hein? Ah, você acha que ele iria deixar barato o abandono de Palmer logo na primeira curva? Nada. O canadense tratou de rodar e ver todo mundo passando por ele, porém, sem precisar abandonar. E tudo isso aconteceu na primeira volta antes da entrada do safety-car, necessário para recolher a Renault de Palmer e a Haas de Grosjean.

A corrida recomeça com Bottas puxando a fila, seguido de Vettel, Raikkonen, Hamilton, Vertappen, Massa, Ricciardo, Pérez, Ocon e Hülkenberg.

Ricciardo, com muita fumaça na roda traseira esquerda, chama o time pelo rádio e denuncia problemas de freio. Ao chegar nos boxes, os mecânicos tiram a roda e um deles faz aquele famoso sinal de degola, sabe? Fim de prova prematuro para o australiano.

Sochi Autodrom, Sochi, Russia. Sunday 30 April 2017. World Copyright: Glenn Dunbar/LAT Images ref: Digital Image _X4I8915

Sochi Autodrom, Sochi, Russia.
Sunday 30 April 2017.
World Copyright: Glenn Dunbar/LAT Images
ref: Digital Image _X4I8915

Enquanto isso, Bottas abria e Hamilton reclamava da temperatura dos pneus. Era impressionante a diferença de rendimento entre os carros da Mercedes. E a corria seguia monótona.

Quem sabe a rodada de troca de pneus poderia alterar alguma coisa. E olha que estava prevista uma só.

Dois primeiros pilotos?

A rodada de paradas não rendeu nenhuma novidade, mas pelo menos deixou a corrida mais divertida. Isso porque Kimi Raikkonen mandou mais um daqueles rádios sensacionais. Ao voltar a pista, Raikkonen perguntou pelo rádio onde ele estava, ao que o engenheiro respondeu que ele estava a nove segundos e meio do compatriota. Raikkonen então perguntou porque não tinham parado mais cedo, ao que o engenheiro retruca dizendo que o piloto da Williams estava liderando a prova. Raikkonen manda um “ah, então tá”, alegrando o domingo de quem ainda não tinha desistido da corrida para dar um pulo na feira.

Vettel se mantinha na pista e apenas foi para os boxes bem mais tarde que os demais. A estratégia seria tentar ter pneus novos para o final da prova e atacar sem dar chance de recuperação do adversário. E parecia que iria funcionar.

O alemão foi diminuindo a diferença bem gradativamente, mas se aproveitou de um erro de Bottas para que a diferença despencasse para a casa de dois segundos e pouco. Haveria ainda alguns retardatários que se envolveriam diretamente nesta luta.

O primeiro foi Carlos Sainz, que fez com que a diferença entre Bottas e Vettel aumentasse em mais de meio segundo, já faltando poucas voltas para o final. Mas Vettel voltou a diminuir perigosamente a distância e chegou de vez em Bottas faltando uma volta e meia para o final. E foi na negociação com Felipe Massa, que voltou de uma segunda troca de pneus devido a um furo em um deles, que Bottas garantiu a primeira vitória de sua carreira na Fórmula 1.
Vettel chegou a mandar um sinal universal com o dedo médio para Massa no calor da pista ainda, quando o brasileiro abriu para ele passar. Não teve jeito.

"Ando devagar, porque já tive pressa e vou para Indianápolis, onde vou correr mais.",

“Ando devagar, porque já tive pressa e vou para Indianápolis, onde vou correr mais.”,

Kimi Raikkonen fez a melhor volta da prova e completou o pódio, no qual se fosse celebrado com vodka, estaria até mais de acordo com os presentes. Hamilton, apagado, chegou mais de trinta segundos atrás do companheiro. Verstappen, outro que parece que correu camuflado, foi o quinto. Os dois carros da Force India chegaram em sexto e sétimo, com a oitava posição para Hülkenberg, nono para Massa e décimo lugar para Carlos Sainz. Ah, Stroll foi o décimo primeiro.

Com quatro corridas disputadas, três vencedores diferentes e liderança da Ferrari no campeonato de construtores e pilotos. Acho que temos um campeonato bem interessante.

Ao desligar dos motores…

– Bottas já estava sendo relegado a posição de segundo piloto. Fez a pole no Bahrein, venceu super pressionado e pela primeira vez hoje. Cresceu muito no conceito de muitos e Eddie Jordan, em entrevista no pódio, pediu diretamente a Toto Wolff, que estava entre os espectadores do pódio, renovação de mais três anos ao finlandês. Wolff ficou meio constrangido, mas é o que deve acontecer se Bottas continuar correspondendo;

– A Force India está fazendo um campeonato razoável, mas seu dono, Vijay Mallya, foi preso em Londres por dívidas com a união indiana. Será que isso afetará o desempenho da equipe nas pistas? Lembrando que é preciso dinheiro;

– A Honda fechou contrato com a Sauber para o ano que vem. Teremos Wehrlein nas 500 milhas de Indianápolis ano que vem?;

– Há boatos, mais que prematuros, de Ricciardo na Ferrari e Vettel na… Mercedes(!). O primeiro boato pode até ter fundamento, mas o segundo acho improvável;

– A Red Bull promete um pacote aerodinâmico monstro para o próximo GP, da Espanha, onde muitas equipes trarão novidades. Tomara que embole ainda mais o campeonato;

– Você leu a resenha até aqui e viu que eu não falei de nenhuma ultrapassagem. É porque não teve mesmo, exceto uma, a de Bottas.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

10 Responses

  1. Glauco de F. Pereira says:

    Esse “gato de Bottas” tem se mostrado melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista…) do que a encomenda!

    Se voltarmos no tempo, quando de sua contratação, o que a Mercedes esperava: Alguém que, a imagem e semelhança de Rosberg, desse um “calorzinho” em Hamilton, “pero no mucho”. E, àquela época, Bottas era o melhor para o momento no mercado.

    Passado pouco mais de quatro meses, não é que além de não ser simplesmente um “batedor” de Hamilton, Bottas mostrou os dentes (literalmente), algo que, cá entre nós, não passava pela cabeça de Toto Wolf, Niki Lauda e muito menos Hamilton!

    E pelo cheiro da mortadela, acho que Bottas não irá parar por aí. Havendo a oportunidade, e agora que sentiu o gosto do Champagne da vitória, duvido muito que não irá querer novamente!

    E Raikkonen, o “mito” das comunicações? Impossível não achar graça de seu ar blase, como se não estivesse nem aí pra nada…

    A cara de “animação” dele quando do pódium, ao estourar o champagne, é de díficil descrição em palavras. E seus diálogos durante a prova então, principalmente ao saber que Bottas era o líder?

    Uma notícia boa do final de semana (claro, dependendo do ponto de vista…) e para quem você conte (menos Alonso), é que a disputa das últimas filas terá mais emoção! Afinal de contas, a McLaren terá a companhia da Sauber na utilização dos motores Honda.

    Sinceramente, pensando em Alonso, não sei se isto seria motivo pra ir ou chorar. De uma coisa pode ter certeza: terá mais 2 companheiros de infortúnio a cada final de prova e companhia para falar mal dos motores Honda, além de que a disputa pelo último lugar do grid ficará animada, por assim dizer.

    Uma luz no final do túnel é que se anuncia uma possível ajuda da Mercedes a Honda na tentativa de solução dos problemas. Coisas da globalização… (ou alguém imaginaria alemães e japoneses trabalhando juntos !?!)

    Enfim, em uma GP sem uma única ultrapassagem, não sobrou muita coisa pra se notar e falar, a não ser o “dedinho” de Vettel pra Massa (não precisava né…) e como se Massa fosse o culpado por ele não ter alcançado Bottas.

    Verdade seja dita, o mérito de Bottas pela vitória deve e merece ser reconhecido. É muito bom uma disputa que, no início do ano, apontava pra somente dois protagonistas, ter dois “coadjuvantes” de ótima qualidade, cada qual se fazendo notar por suas características: Bottas parecendo não ser o cordeirinho que todos achavam que iria ser e Raikkonen cada vez melhor durante as corridas em seus diálogos com o pit wall.

    O único detalhe que talvez possa por um freio a impetuosidade demonstrada por Bottas é que seu contrato, pelo menos é o que é informado pela imprensa, é que seu contrato com a Mercedes de apenas uma temporada.

    Será que mais uma vez veremos o jogo de equipe ser utilizado pra controlar o talento de um piloto ou evitar disputas internas? Tomara que Bottas não seja a bola da vez neste tipo de conduta por parte da Mercedes.

    P.S. – Ô Laurão, que tal fazer jus a que levantou a lebre da possibilidade de Ricciardo ser piloto da Ferrari?? Rsrsrs

    • Grande Glauco!

      Mais fácil falar a fonte do que fazer uma resenha de corrida sem contar nenhuma ultrapassagem. Me senti no primário, quando a professora falava que a redação tinha que ter no mínimo 15 linhas e eu aumentava a letra.
      Eu ouvi a transmissão pela Bandnews de São Paulo, e a Julianne Cerasoli pingou no ar que este era o burburinho nos boxes. Há especulações até de pré-contrato. Apesar disso, todos acharam muito precoce esta possibilidade, apesar de parecer unânime que Raikkonen está se despedindo este ano.
      Grande abraço.

      • Glauco de F. Pereira says:

        Eu colocaria minhas fichas em Ricciardo de vermelho em 2018. Resta saber se a “chiliquenta” Vettel não terá poder de veto sobre uma possível contratação. Convenhamos que o melhor companheiro de casa é Raikkonen, claro que se mantiver sua “motivação” em níveis tão altos como hoje…

  2. Fábio Abade says:

    >Vou dar meu mais sincero comentário quanto à corrida:

    ZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZzZz

    >Vou dar meu mais sincero comentário quanto à resenha de 15 linhas do Lauro:

    Vou deixar de ver as corridas e só ler os textos do Lauro. Aqui temos emoção e ótimas piadelas.

    E o comentarista Glauco sempre com complementos pertinentes e concisos.

    > Vou deixar meu comentário mais sincero quanto ao que se diz “piloto” Felipe Massa:

    VTNC, lixo !!

    E não vou´pagar royaltes pro Vettel kkkkk

    • Você precisa assistir as corridas para ver se a resenha e piadelas procedem.

      • Fábio Abade says:

        Tô assistindo a corrida gravada e usando o fast forward constantemente…

        Não vejo a hora que a equipe que o Brawn montou traga as soluções para a falta de ultrapassagens.

        Já poderia começar eliminando as Asas Móveis e com isso aliviando peso desnecessário. 😀

  3. Fábio Abade says:

    Ah… comentário sobre uma novidade que NÃO gostei do site:

    Não acho legal a novidade de NT enviar o texto/matéria toda nos emails.

    Com isso o pessoal visita menos o site e temos menos comentários por aqui.

    😉

    Sugestão: Mandem só o primeiro paragrafo e um link em seguida trazendo o pessoal para o site.

    Vaaaaaaaaamo que Vamo!!

  4. Glauco de F. Pereira says:

    Off topic…

    E Alonso, hein, 360 km/h de “média” no primeiro treino!!!

    https://www.flatout.com.br/alonso-crava-360-kmh-de-media-em-seu-primeiro-teste-na-indy-veja-como-foi/

    Imaginem só ele com um carro que fizesse jus a seu talento na F1!!!!

    Se não fosse o gênio da “chiliquenta”…

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *