Polarizando


Na pista, Hamilton e Vettel tiveram a primeira disputa roda com roda, literalmente. E deu Hamilton, mas Vettel ainda é o líder do mundial.

McLagre

Declarações fortes de Fernando Alonso sobre a Honda, dizendo que fornecedora de motores estava arriscando a sua reputação com um desempenho tão pífio, davam o tom na McLaren neste final de semana. A quebra do motor no treino livre da sexta parecia que ia selar mais um final de semana vexatório para a equipe inglesa.

O domínio em Barcelona era da Mercedes, mas a Ferrari quis dar uma esperança aos tifosi fazendo a dobradinha antes do treino oficial, com Raikkonen andando a frente de Vettel.

E o alemão, líder do mundial, quase não conseguiu treinar. É que a Ferrari teve que trocar uma das unidades de força do carro vermelho às pressas. No começo do treino oficial, o drama só aumentou. O carro parecia não andar, e foi até chamado para os boxes, mas continuou na pista e fez até o melhor tempo no Q1, por onde ficaram Daniil Kvyat, Stoffel Vandoorne, Lance Stroll, Jolyon Palmer e Marcus Ericsson.

Repararam? De novo, cinco carros diferentes (Toro Rosso, McLaren, Williams, Renault e Sauber). Difícil entender o que Williams e McLaren estão fazendo aí, mas no primeiro caso é o piloto.

Quem decepcionou um pouco na continuidade do treino foi a Haas. Isso porque a equipe estava fazendo um excelente trabalho, andando inclusive entre os dez primeiros nos treinos livres. Romain Grosjean foi apenas o décimo quarto. Kevin Magnussen chegou até perto, foi o décimo primeiro.

Ainda sobre os eliminados no Q2, o pior colocado foi Pascal Wehrlein, e havia escapado da degola do Q1 por apenas 0.005s de diferença para seu companheiro de equipe. Carlos Sainz e Nico Hülkenberg também não passaram pelo Q2, ficando respectivamente em décimo segundo e terceiro lugares.

Sobraram dez, e dentre eles, Fernando Alonso, para alegria dos espanhóis.

Santo de casa fazendo milagre.

Santo de casa fazendo milagre.

E ele não ficou com a décima posição apenas não. Ele fez o sétimo tempo meus amigos, a frente de Sérgio Pérez, Felipe Massa e Estebán Ocon, ou seja, dois Force India e um Williams. Foi um verdadeiro show de pilotagem, colocando em evidência o talento imenso deste piloto que deveria, sim, ter um carro mais veloz e confiável nas mãos. Para se ter uma idéia, ele foi apenas mais lento que Mercedes, Ferrari e Red Bull.

Apesar de todas as atualizações que vieram em todas as equipes, desde o bico até na identificação visual dos carros (que eu gostei, particularmente), a Red Bull ainda não conseguiu alcançar os carros vermelhos e prateados. Acabou ficando com Verstappen e Ricciardo em quinto e sexto lugares. E lá na frente a briga foi “milesimal”.

Bottas foi o primeiro dos quatro mais velozes a fechar a volta, com uma erradinha na entrada da reta, e tinha a pole provisória quando Hamilton, já com o cronômetro zerado, baixou ainda mais o tempo e esperava pela passagem dos carros da Ferrari.

Veio Vettel, e conseguiu roubar a primeira fila de Bottas, ficando a apenas 0.051s de Hamilton. Ainda tinha Raikkonen para fechar a volta, mas o finlandês assumiu um erro na sua volta rápida e acabou com o quarto lugar, e por pouco não tomou o terceiro lugar de Bottas.

Configurava-se, assim, um grid que prometia muito na largada. Só não se esperava que alguns protagonistas saíssem tão cedo.

Chora menino

Até a primeira freada, uma reta grande, e todo mudo chegando junto em um “S” complicado, mais ou menos como é na Austrália. Mas, se lá todo mundo foi comportado, na quinta etapa do mundial já tem muita gente sem a paciência necessária.

Vettel pulou para a ponta até com certa facilidade. Mas o problema estava pouco mais atrás. Raikkonen já havia superado Bottas e Verstappen vinha por fora para brigar pela terceira posição. Não tinha espaço para todo mundo e Bottas acabou tocando na roda traseira direita de Raikkonen, que na tentativa de controlar o carro, acertou Max Verstappen. Os carros da Ferrari e da Red Bull foram parar na área de escape e voltaram perigosamente para a pista, praticamente parando no meio da mesma enquanto o restante desviava.

Vettel larga melhor que Hamilton, ponto.

Vettel larga melhor que Hamilton, ponto.

Quem fez uma boa largada também foi Felipe Massa, que já figurava em sexto lugar, mas acabou jogando Alonso para fora, prejudicando também a corrida do espanhol. Porém, ambos ainda continuaram na prova, mas Massa teve que fazer um pit-stop logo de cara por causa de um pneu furado. Já Raikkonen e Verstappen foram acabaram abandonando a prova, para o choro incontido de um menino tifosi filmado na arquibancada pela transmissão da TV.

Quem se deu bem na largada, como também já é normal, Nico Hülkenberg apareceu em sétimo lugar, seguido por Magnussen, Sainz e Grosjean. Magnussen e Sainz, diga-se, brigando ferrenhamente pela oitava posição.

Vettel não conseguia abrir muito para Hamilton, mas Bottas não acompanhava os dois primeiros. Pelo rádio, Ferrari e McLaren orientavam seus pilotos a mexerem nas configurações do volante para melhorarem o desempenho na pista. Hamilton conseguiu se aproximar um pouco.

Primeira rodada de pit-stops inaugurada por Alonso, e Vettel foi o primeiro dos líderes a entrar, voltando atrás de Ricciardo, na quarta posição, mas rapidamente sobe para terceiro. Neste momento, os carros da Mercedes não fizeram suas paradas imediatamente, o que começou a gerar a especulação de uma parada a menos.

Como o circuito espanhol não é de simples ultrapassagem, qualquer uma que acontecesse deveria ser celebrada, nem que fosse de Vandoorne sobre Palmer. Mas é preciso destacar que antes, ainda naquela briga entre Magnussen e Sainz, teve um momento bem interessante quando ambos pararam ao mesmo tempo e a Toro Rosso liberou Sainz pouquinho antes de Magnussen, obrigando os dois a saírem quase que lado a lado no pit-lane, quando Sainz decidiu ir pela grama mesmo para tentar superar o piloto da Haas, mas sem sucesso.

E por falar em poeira levantando, amigo…

Pascal Wehrlein e sua Sauber. Primeiros pontos em 2017.

Pascal Wehrlein e sua Sauber. Primeiros pontos em 2017.

Hamilton liderava a prova e foi para a sua parada, voltando atrás de Vettel que, nessas alturas, já estava colado em Valtteri Bottas. O finlandês e mais novo vencedor da categoria fazia, então, o papel de segundo piloto e segurava Vettel como podia. O alemão tentou algumas vezes e Bottas segurou, mas quando a Ferrari entrou bem próxima na reta principal, Vettel aplicou um drible em Bottas que, segundo Odinei Edson, da Band News SP, pode se comparar a um “rolinho” no futebol. Descrever a manobra, no entanto, é mais parecida com uma “pedalada”. Vettel ameaçou por dentro, voltou para o lado de fora e, quando Bottas fechou este lado, Vettel voltou por dentro e colocando duas rodas na grama, deixou pra frear por último e ganhou de volta a primeira posição, para aplauso dos presentes e a alegria daquele menininho que chorava com o abandono de Raikkonen.

O problema para Vettel é que ele perdeu muito tempo atrás de Bottas, tanto que Hamilton diminuiu muito a diferença. Nem precisa falar que Bottas abriu para o inglês sem pestanejar. E ainda havia um outro fator que interferia no rendimento de Ferrari e Mercedes neste momento, que era a diferença de compostos nos carros. Enquanto Vettel vinha de macios de novo, Hamilton já havia colocado os médios.

Massa estava mesmo “zicado” nesta corrida. Nesta? Bom, deixa pra lá. Quando ultrapassou Vandoorne, o belga nem percebeu a manobra e fez a tangencia da curva naturalmente, tocando rodas com o brasileiro e sendo forçado a abandonar pela quebra da suspensão, o que também provocaria um safety car virtual.

Ói, ói o trem

Entre os que pararam nesta oportunidade, estava Pascal Wehrlein que, acreditem, chegou a andar na quarta posição e, com tantas voltas cumpridas, era claro que o alemão da Sauber iria fazer apenas uma parada e tinha, sim, grandes chances de pontuar. Ele voltou em décimo.

Quem também fez a parada foi Hamilton, mas esta já ocorreu quando o safety car virtual estava se encerrando. Logo em seguida foi a vez de Vettel parar. E o retorno a pista do ferrarista deu novamente emoção a corrida.

Vettel, a esquerda do vídeo, saía do pitlane respeitando o limite de velocidade. A direita, se via Hamilton rasgando a reta com todos os cavalos que o motor Mercedes lhe dava. Vettel acelera após a saída dos boxes, Hamilton já está pensando na frenagem. Na curva, os dois se tocam porque Vettel deu uma bela esparramada e Hamilton teve que recuar. Vale dizer que Vettel tinha pneus médios e Hamilton estava calçado com os macios. Um deles, aliás, sem a faixa amarela característica por causa do toque com Vettel.

Tendo feito a boa ação do dia, ou seja, ajudado a segurar Vettel e ter dado passagem para Hamilton, Bottas foi forçado a abandonar por quebra do motor Mercedes. Mas se engana quem pensa que Hamilton aliviou o pé por causa disso. Muito próximo de Vettel o tempo todo desde que saiu dos boxes, o tricampeão mundial do carro prateado deu um passão em Vettel que até o alemão pensou que era um trem.

"Trago essa rosa, para pontuar".

“Trago essa rosa, para pontuar”.

Corrida terminando, Hamilton controlando a distância para Vettel e vem a notícia que Wehrlein seria punido em tempo por ter errado a entrada dos boxes e ter passado do lado externo de um Fred, ou melhor, de um cone.

Ainda teria tempo para Kvyat e Magnussen se enroscarem e o piloto da Haas ter um pneu furado e saindo da zona de pontos. Mas Romain Grosjean conseguiu um pontinho para a equipe americana.

Lewis Hamilton chegou a 55ª vitória na carreira, a segunda na temporada, e se aproxima mais de Vettel na disputa pelo mundial. Vettel repetiu o segundo lugar da Rússia, e o pódio teve a companhia de Daniel Ricciardo, pela primeira vez no ano.

A grande corrida da Force India quase passou despercebida, mas os carros de Pérez e Ocon cruzaram em quarto e quinto lugares respectivamente. Sim, a Force India é a única equipe que terminou as cinco corridas do ano até aqui com os dois pilotos na zona de pontos. Só Hamilton e Vettel, além deles, fizeram isso. Por isso, não provoque, é cor-de-rosa Force.

Hülkenberg foi o sexto colocado, ótimo resultado de novo. Carlos Sainz foi o sétimo por conta da punição de Wehrlein, mas o piloto da Sauber foi o oitavo colocado! Kvyat, mesmo largando na última fila, foi o nono, e, como dissemos, Grosjean levou o ponto de honra.

Thomas, o maior vencedor do dia.

Thomas, o maior vencedor do dia.

Ao desligar dos motores…

– A nova identificação visual dos números dos carros ficou bem interessante sim. E a entrevista dos três melhores colocados final do treino ocorrendo na pista, em frente a arquibancada principal, dá bem o tom norte americano que a Liberty quer colocar a categoria. Por enquanto, ok;

– Mas o GP da Espanha de 2017 ficará marcado na memória de todos pelo pequeno Thomas. Ele é aquele menino que chorava na primeira volta da prova com o abandono de Raikkonen. Que vibrou com a ultrapassagem de Vettel sobre Bottas. E que emocionou a todos quando, de sorriso aberto, foi mostrado no motorhome da Ferrari, ao lado de Raikkonen, para fotos e um boné novo. O tamanho da paixão desta família pela Fórmula 1, em especial pela Ferrari, se resume a que o garoto Thomas disse quando entrevistado: “agora Raikkonen é meu amigo”. Aplausos para quem teve a iniciativa tênue de selar a paixão de um fã, ainda criança, pela categoria. Sensacional. Já deve ter muito marmanjo pensando em chorar em Mônaco;

– Fernando Alonso terminou a corrida em décimo segundo lugar. Mesmo assim, desfilou na volta de retorno aos boxes empunhando a bandeira espanhola. Seria uma despedida de seus conterrâneos em circuitos espanhóis? Aposentadoria?;

– A Williams tem que pensar no que fazer com Stroll. Podem falar que eu pego no pé do cara, mas duas voltas atrás de Ferrari e Mercedes, no circuito em que todos fizeram a pré-temporada e a equipe inglesa chegou a andar na frente, é demais. E os problemas de Massa na largada não podem justificar também um desempenho tão fraco, sem um pontinho sequer, em uma corrida com abandono de três carros que pontuariam, sem dúvida. Alerta em Grove;

– Alonso sai de cena, para correr as 500 Milhas de Indianápolis. Jenson Button volta no principado. Se andar bem, acho que a McLaren vai convidar o Vandoorne a correr até Maratona, se for o caso.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

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