Hamilton volta à cena


O tricampeão mundial se recupera do mal resultado de Mônaco vencendo no Canadá e pondo mais disputa no Mundial. A dobradinha da Mercedes ajudou Hamilton, mas Vettel, apesar de fora do pódio, segue forte no mundial.

A pole da reverência

Um piloto chegou no Canadá com muito mais milhagem que seus adversários.

Brincadeiras à parte, Fernando Alonso voltou para o cockpit da McLaren não sem voltar a enfrentar problemas no primeiro treino livre. Foi aplaudido de pé ao descer do carro. No segundo treino livre, foi o sétimo, dando um pouco alegria para seus fãs que tiveram certeza, depois da aventura em Indianápolis (que parece que ainda não terminou).

Ferrari e McLaren dominaram os treinos, como era de se esperar, e com o mesmo equilíbrio dos últimos GPs.
Tarde de sol em Montreal e a primeira etapa do treino, o Q1, deixou de fora Pascal Wehrlein, mostrando que o acidente em Mônaco foi de pouca sequela, e seu companheiro Ericsson na última fila. Kevin Magnussen foi muito mal, ficando com a penúltima fila ao lado do piloto da casa, Lance Stroll. Vandoorne também ficou pelo caminho.

Circuito muito técnico, onde freio é importante e um bom acerto aerodinâmico também. Jolyon Palmer ficou com a pior posição do Q2, atrás de Romain Grosjean. Daniil Kvyat quase passou para o Q3, mas ficou apenas com o décimo primeiro lugar, a frente de Alonso e a frente do companheiro de equipe Sainz.

No Q3, não deu para Hülkenberg ir além do décimo lugar, porque os carros da Force India estavam muito redondos. Tanto que a diferença entre eles, no Q1 e Q2 , foi menor que um décimo, e no Q3 apenas 0.117s. Os carros rosa estão fazendo por merecer resultados bons.

Atrás dos carros da Ferrari, Mercedes e Red Bull, o solitário Felipe Massa. Foi o melhor do resto, como costuma se dizer, mas impotente para brigar com os ponteiros. Bom trabalho nos treinos que davam até uma boa perspectiva para a corrida.

A terceira fila ficou com a Red Bull, e Verstappen deixou Ricciardo na poeira.

Raikkonen, que parecia ainda não ter digerido muito bem o resultado de Mônaco e que andou na frente no treino livre 2, foi apenas o quarto melhor, dividindo a fila com Bottas.

Ídolo e fã. O respeito e a reverência de Hamilton por Ayrton Senna.

Ídolo e fã. O respeito e a reverência de Hamilton por Ayrton Senna.

E que disputa pela pole! Na segunda tentativa do Q3, Hamilton, Vettel e Bottas tinham praticamente o mesmo tempo. Depois de Bottas ter fechado a volta, Hamilton pulverizou o recorde da pista e assumiu a primeira posição na tabela com o recorde dos 50 anos do GP do Canadá. Ainda tinha Vettel para fechar a volta, mas o tempo de Hamilton era insuperável.

Na ilha de Notre Dame, o piloto inglês chegou a sua pole de número 65 na carreira, igualando seu maior ídolo Ayrton Senna. Como presente, durante a entrevista dos três primeiros colocados na classificação, Hamilton recebeu uma réplica do capacete de seu ídolo, em alusão ao ano de 1987. Segundo a família, haverá a troca por um original em breve, mas o gesto e os registros de Hamilton abraçado, beijando e erguendo o capacete amarelo para o público, que retribuiu com aplausos e muito reconhecimento, foi memorável.
E prometia faísca na primeira curva.

Sainz se desculpa com Massa

Ser o primeiro do resto era uma condição muito boa para Felipe Massa marcar pontos para a Williams. Só que Felipe Massa não tem lá grandes recordações do circuito canadense e, de novo, vai lamentar a falta de sorte ocorrida logo na segunda curva.

Enquanto Hamilton manteve a ponta e Verstappen veio atropelando os mais adiantados para assumir o segundo lugar, dando até um chega prá lá em Vettel com direito a toque asa direita do alemão. Bottas também ganhou a posição de Vettel, que só figurava em quarto lugar. Raikkonen caiu ainda mais.

Olha o Sainz chegando com tudo para acertar o Massa.

Olha o Sainz chegando com tudo para acertar o Massa.

Mas, voltando a falar de Felipe, a razão do seu abandono veio lá de trás, de uma briga entre Grosjean e Sainz. O espanhol acabou perdendo o controle da Toro Rosso e tocou em Grosjean, perdendo totalmente o controle e cortando todo mundo pela faixa de grama a direita da pista, terminando por acertar em cheio a traseira de Massa, que nem teve tempo de anotar a placa. Ambos abandonaram, mas Grosjean seguiu na prova, nesta altura, já sob a intervenção do safety-car.

Na relargada, Verstappen mais atrevido ainda foi para cima de Hamilton mas quase perdeu a posição para Bottas, mas o holandês segurou firme. Enquanto isso, os carros da Ferrari vinham sofrendo. Vettel perdeu um pedaço da asa dianteira em razão do toque com Verstappen e Raikkonen deu uma bela sambada na grama, mas ainda conseguiu se manter na pista, só que superado por Pérez.

Como resultado de um começo negro para o time vermelho, Vettel foi chamado aos boxes para troca de pneus e também já colocou um bico novo. Os pneus, os compostos.

Décima primeira volta, no mesmo lugar que Sainz escapou, Verstappen parou na pista com o carro simplesmente apagando, rendendo mais um safety-car, mas o virtual agora.

Agora, se tem alguma coisa que eu não sabia é o quanto o Grosjean enxergava bem. É que desde o começo da prova dava para ver que tinha um objeto na pista, na sombra, debaixo de uma ponte do circuito. O francês manda pelo rádio que aquilo era um boné da Ferrari. Só ele viu que era um boné da Ferrari e, se ele crava tamanho e que foi fabricado na China, aí podia até ganhar ponto extra.

Décima quarta volta e a corrida recomeça sem o safety-car virtual com Daniil Kvyat tomando um drive through por conta da largada. É que o russo ficou parado na volta de apresentação e foi recuperando posições ao longo da pista para largar na posição que havia conseguido no treino. Punição para ele e o futuro sogro, Nelson Piquet, deve ter começado a pensar o que a filha viu nesse cara.

Verstappen fez uma largada monstruosa, mas abandonou cedo demais.

Verstappen fez uma largada monstruosa, mas abandonou cedo demais.

Na sequência de voltas, foi a vez da maioria dos pilotos fazerem suas paradas de box para troca de pneus. Na pista, uma briga boa entre Grosjean, Stroll e Hülkenberg e pinta mais uma punição, agora para Magnussen, por ter ultrapassado Vandoorne durante o safety-car virtual, apesar do piloto da Haas ter devolvido a posição imediatamente depois de ter percebido a besteira que fez. O Magnussen, na verdade, estava se mexendo muito a frente dos que o tentavam ultrapassar.

Recuperação sem forçar demais

Se mantinham na pista sem troca Lewis Hamilton liderando, Esteban Ocon em segundo e Fernando Alonso, em guerra pelo rádio com a equipe, dizendo que não era para ser atrapalhado se eles não tivessem nenhuma informação relevante, além de, claro, se queixar da impotência do motor e etc.

Depois das paradas dos líderes, Hamilton manteve a ponta, Bottas voltou para a segunda posição, com Ricciardo em terceiro, Pérez em quarto, Raikkonen em quinto e Ocon apenas na sexta posição, a frente de Vettel, Alonso (esse ainda se mantendo na pista sem parada), Hülkenberg e Kvyat, todos estes pontuando até então.

Antes ainda da parada de Alondo, Raikkonen já fazia a sua segunda parada e voltou para pista queimando o asfalto e fazendo as melhores voltas da prova. Neste momento, já era previsível mais uma parada de Vettel, que já reclamava há tempos de danos no assoalho do seu carro. Mesmo tirando diferença para Ricciardo, Pérez e Ocon, Vettel fez a sua segunda parada. Hamilton deve ter colocado um café para fazer nesta hora.

Na ótima Force India, uma discussão pelo rádio. Pérez foi orientado a ceder a posição para Ocon, com pneus mais novos, para que este atacasse Ricciardo, em terceiro. Pérez parecia ter ignorado, mas acabou pedindo uma segunda chance e se manteve a frente do companheiro de equipe.

Não era mesmo uma boa corrida para Kvyat, que chegou aos boxes reclamando de vibração na parte traseira do carro. Os mecânicos brincaram de “manequim challenge” para o russo pagar a punição. Aí trouxeram pneus amarelos, a roda não saia, resolveram trocar de pneu, alguém deve ter sugerido trocar o capacete, as cores do carro, e o russo acabou abandonando e indo para a prancha (aquela de rolamentos que ajuda o carro a se movimentar no pit-lane).

Já chegando a fase final da corrida, Ricciardo, Pérez e Ocon já começavam a ficar na alça de mira de Raikkonen e Vettel. O rádio da Force India seguia tentando convencer Pérez de abrir caminho para Ocon e o todo mundo queria saber o que a Ferrari faria em relação a Raikkonen e Vettel, já que o finlandês estava ainda a frente do líder do campeonato.

Os carros da Force India parecem amarrados, andam juntos o tempo todo,

Os carros da Force India parecem amarrados, andam juntos o tempo todo,

De repente, Vettel aparece na frente de Raikkonen, sem ninguém entender. Recuperando as imagens, pode-se ver que Raikkonen passou reto ao final da reta que traz para os boxes e acabou facilitando as coisas para Vettel. Não dá para afirmar que foi proposital, mas, como foi o título da minha última resenha, sempre tem um jeito. Raikkonen acusou problemas pelo rádio e chegou a discutir com o engenheiro.

O fato agora é que Vettel tinha um paredão rosa entre ele e o quarto lugar, e ambos os pilotos da Force India ainda ameaçando o pódio de Ricciardo.

Ocon estava com mais equilíbrio para passar Pérez, mas o mexicano fechou a porta do companheiro. Quando cruzavam a reta dos boxes, ambos foram para o lado sujo da pista e Vettel mergulhou por dentro para tomar a posição de Ocon na marra. O francês teve que passar pela área de escape para não bater em Vettel, mas se manteve na pista. Mais algumas voltas e Vettel passa também por Pérez.

O gran finale, no entanto, foi o abandono de Alonso. O piloto da McLaren, mais uma vez aplaudido pelo público presente, saiu do carro e foi para o meio da arquibancada com a galera, jogando luvas e retribuindo um pouco do carinho dos presentes para com ele durante todo o final de semana. Muito legal a atitude de Alonso.

Hamilton venceu pela 56ª vez na carreira. Em segundo, Bottas, tão discreto que nem foi citado, não é? Completando o pódio, Ricciardo, que fez uma grande prova. Vettel se recuperou de uma prova que parecia muito ruim para ele e para o campeonato, seguido pelos carros da Force India, que vêm fazendo um campeonato muito consistente. Raikkonen, Hülkenberg, em sétimo e oitavo, além dos primeiros pontos para Lance Stroll, com o nono lugar, em casa, para alegria da família e autoconfiança para ele mesmo a partir de agora. Será? Em décimo, Grosjean.

Stroll pontuando. Não podia ser melhor do que em casa.

Stroll pontuando. Não podia ser melhor do que em casa.

Na volta aos boxes, Hamilton sacou a bandeira inglesa e bem ao estilo de seu ídolo, deu a volta da vitória enaltecendo seu país.

Ao desligar dos motores…

– Há quem diga que Rosberg pode voltar a Fórmula 1 pela… Ferrari;

– Lance Stroll pontuol pela primeira vez. Claro que os abandonos ajudaram, mas o menino fez uma corrida agressiva, disputada, não errou e deve, com isso, tirar um pouco de pressão dos ombros;

– A corrida teve ultrapassagens e boas disputas. Ficaram para trás as dúvidas sobre a largura dos carros e a zona de instabilidade aerodinâmica que poderiam prejudicar as ultrapassagens. Precisamos de circuitos técnicos como Montreal, que renovou contrato com a FIA até 2029. Que bom;

– Vettel continua liderando o mundial, mas a Mercedes retoma a liderança nos construtores;

– As homenagens a Hamilton e a reverência a Senna fizeram surgir várias discussões nas redes sociais com comparações entre ambos. Senna tinha, em sua época, um feito extraordinário. Hamilton, tempos depois, tem um feito não menos notável. Senna era, e Hamilton é, sem dúvida, excelentes pilotos em voltas lançadas. Compará-los é inevitável, mas pode ser injusto;

– A Liberty Midia trouxe de volta o briefing dos pilotos e a corrida de barcos na raia olímpica de Montreal. Gostei muito;

– Desculpem pelo trocadilho do título, mas cabe bem ao que aconteceu neste final de semana.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

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