Bottas, com os dois pés


Valtteri Bottas vence a segunda na carreira, desta vez de ponta a ponta, mas é Vettel que sai da Áustria com mais fôlego na disputa pelo mundial. Ricciardo foi ao pódio mais uma vez, com direito ao tradicional shoey.

A pole veio depois de uma amarelada

Quando se tem uma polarização tão grande entre dois pilotos de equipes diferentes, é natural que a torcida se divida de maneira mais contundente, ou seja, acusando o opositor de ser desleal, fraco, xoxo, etc. E as duas últimas semanas foram assim, como há muito tempo não víamos, ou líamos.

A repercussão do caso Baku, nome que eu batizo o incidente no GP do Azerbaijão como se fosse um agente da PF, foi o que de melhor aconteceu à Fórmula 1 nos últimos anos. E, mesmo com a total absolvição de Vettel mediante pedido de desculpas formais a Lewis Hamilton, o assunto ainda repercutiu muito durante os treinos do GP da Áustria.

Na entrevista dos pilotos na quinta-feira, ambos lado a lado e separados apenas por Kevin Magnussen, foi a oportunidade de Vettel se dizer arrependido, que estava de cabeça quente, e que não faria de novo. Com tanto assunto, era dada como certa uma primeira fila com os dois postulantes ao título.

O domínio de Lewis Hamilton foi grande na sexta-feira, e os carros da Ferrari pareciam mais preocupados em não perderem a segunda fila para os carros azuis donos da casa, os Red Bull. Mas a sexta ficou para trás, assim como os dois recordes de Hamilton, pulverizados na manhã de sábado por Vettel na última atividade livre dos pilotos antes do treino oficial. Tudo bem, Hamilton foi segundo, mas a troca de câmbio que a Mercedes precisou fazer no carro do inglês já decretava que, mesmo se ficasse com o melhor tempo do treino oficial, o carro #44 sairia apenas da sexta posição na melhor das hipóteses.

Kvyat fez o estrago e tirou Alonso e Verstappen da prova logo na curva 1

Kvyat fez o estrago e tirou Alonso e Verstappen da prova logo na curva 1

Começa o Q1 e já fica evidente uma coisa: os carros da Williams não estavam nada bem. Já havia sido assim nos treinos livres e, para decretar a péssima condição de treino dos bólidos brancos, ambos só não foram mais lentos que os carros da Sauber, e logo foram eliminados no Q1. Juntamente com Sauber e Williams, a Renault de Jolyon Palmer também ficou pelo caminho.

A Haas estava relativamente bem, mas Kevin Magnussen acabou ficando com a pior colocão do Q2. Dizem que queria repetir a entrevista e largar entre Hamilton e Vettel, mas como diziam quando eu era pequeno, precisa comer muito arroz e feijão para que isto fosse uma realidade no treino oficial. Daniil Kvyat também ficou pelo caminho, logo atrás dos carros da McLaren, que até então estavam tendo um final de semana sem problemas, exceto pela velocidade. Nico Hülkenberg acabou também sendo cortado no Q2.

No circuito de Spielberg, os carros da Force India não conseguiram demonstrar a mesma competitividade que se esperava deles nos treinos, mas mesmo assim foram para o Q3. Esteban Ocon ficou em nono, a frente de Carlos Sainz Jr e logo atrás de Sergio Pérez, que foi o oitavo. Só que a treino não teve aquele gran finale esperado.

Valtteri Bottas tinha o melhor tempo, com Vettel em segundo e Hamilton em terceiro, mais os dois carros da Red Bull. Em sexto, aquele que acabaria sendo o protagonista da classificação. Romain Grosjean no último minuto do treino, acabou encostando o carro na pista com problemas e decretando bandeira amarela nos segundos finais, impedindo qualquer um de melhorar o seu tempo. Assim, a pole ficou com Valtteri Bottas, mineiramente, e formando a primeira fila com Sebastian Vettel. Hamilton, com a terceira posição, acabou caindo para oitavo, e se posicionando entre os dois carros da Force India. Grosjean, mesmo com o problema, ficou com o sexto lugar, atrás de Raikkonen, Ricciardo e Verstappen.

Um circuito de pouco mais de um minuto por volta, rápido, com pontos de ultrapassagem e promessa de uma grande corrida.

Max zicado

Para completar a festa, só se chovesse. Mas, os ventos que sopraram a possibilidade de mais de 80% de precipitação durante a prova, acabaram por afastar algumas nuvens negras que rodeavam o autódromo.

No entanto, se tivesse caído um raio apenas, este seria bem no capacete de Max Verstappen.

Quando os sinais se apagaram, Valtteri Bottas manteve a liderança, seguido de Vettel, enquanto Ricciardo pulava para a terceira posição, trazendo Grosjean com ele, e ambos passando Raikkonen. A largada de Bottas foi tão boa, mas tão boa, que deu a impressão que o piloto do carro #77 havia queimado a largada. Depois de muita investigação, os comissários entenderam que o tempo de reação do piloto ao apagar das luzes vermelhas, foi realmente assustador (algo em torno de dois décimos de segundo apenas) e não houve punição alguma.

Massa, nono. A foto salvou.

Massa, nono. A foto salvou.

Mas, voltando ao Verstappen. Ele fez uma péssima largada, assim como Sainz Jr. Acontece que, enquanto Alonso e Kvyat ultrapassavam Sainz, chegaram ao mesmo tempo em Verstappen na primeira curva. Era uma vez um russo, um espanhol e um holandês, onde o russo, segundo o espanhol, quis jogar boliche com um carro de Fórmula 1. A desastrosa largada de Verstappen lhe custou um abandono prematuro, o quinto nas últimas sete etapas, frustrando imensamente o mar laranja das arquibancadas. Alonso também acabou abandonando e Kvyat foi penalizado com um drive-thru.

Raikkonen consegue se recuperar rápido sobre Grosjean enquanto Hamilton também já via o francês pela frente após ganhar a posição de Sérgio Pérez. Mais duas voltas e Hamilton já aparecia na quinta posição. Era a décima volta da corrida e a diferença entre Bottas e Hamilton já estava na casa de quinze segundos.

O grande problema dos pilotos na pista de Spielberg era saberem controlar o desgaste de pneus, visto que praticamente todos partiriam para apenas uma parada para troca de pneus. E já com vinte voltas, muitos reclamavam de bolhas e desgastes, mas ninguém se arriscava parar. O primeiro a fazer o pit-stop foi Nico Hülkenberg, mas o piloto da Renault estava muito mal posicionado, apenas em décimo sexto.

É preciso destacar também o bom início de prova dos pilotos da Williams, que pularam da décima sétima e oitava posições para a nona e décima, respectivamente, Massa e Stroll. Os dois carros na zona de pontuação era algo positivo para o time, que não conseguiu atingir boa temperatura dos pneus em volta lançada e por isso largaram lá atrás. Mas, ao longo das 71 voltas, o rendimento poderia ser diferente.

Grosjean fez um belo trabalho. Chegar atrás de Mercedes, Ferrari e Red Bull, é um feito e tanto.

Grosjean fez um belo trabalho. Chegar atrás de Mercedes, Ferrari e Red Bull, é um feito e tanto.

A Haas também fazia boa corrida, com Grosjean lutando para se manter na frente dos carros da Force India, em sexto, e Magnussen lutando para entrar na zona de pontos em briga direta com Stroll. Só que o Magnussen esqueceu de combinar com o motor Ferrari de seu carro que tinha planos melhores para a prova, ao que o propulsor italiano abriu o bico, obrigando o dinamarquês a abandonar.

Botando banca

Hamilton, o único dos dez primeiros que optou pelos supermacios ao invés dos ultramacios, foi o primeiro dos líderes a parar para seu pit-stop. Ele vinha colocando pressão sobre Kimi Raikkonen, mas ao invés de brigar na pista, preferiu fazer a troca, o que fatalmente lhe traria melhor resultado na briga com o finlandês quando este fizesse sua parada. Vendo o movimento de Hamilton, Ricciardo e Vettel também fizeram suas paradas nas voltas seguintes.

Superioridade das equipes grandes era tão evidente que Bottas chegou para dar uma volta em Sergio Pérez, o sétimo. Mesmo com bandeiras azuis para o mexicano, o líder não conseguiu fácil ultrapassagem. Já estávamos pra lá da metade da prova e havia quase que uma certeza de que alguns pilotos estavam abusando da vida útil de seus pneus. Bottas era um deles, e foi parar apenas na volta 41 das 71 previstas. Massa, que se segurava como podia na zona dos pontos, foi para o seu pit stop apenas na volta 48!

Depois de todas paradas e ordem reestabelecida, Bottas perdia terreno para Vettel, enquanto Hamilton vinha alucinado atrás de Ricciardo na briga por um lugar ao pódio. Raikkonen havia caído para quinto. No meio deles, vários retardatários lutando por posições menos nobres mas ainda na zona de pontos. Caso, por exemplo, de Ocon e Massa, que tiveram que ceder passagem para toda esta gente aí.

E tome shoey. Cinco pódios seguidos para Ricciardo.

E tome shoey. Cinco pódios seguidos para Ricciardo.

Nas voltas finais, tanto Bottas e Vettel quanto Ricciardo e Hamilton tinham diferenças entre si na casa de um segundo apenas. A boa negociação nas ultrapassagens dos retardatários fez com que Bottas voltasse a vencer, sua segunda vitória no ano e na carreira, assim como também levou Ricciardo para mais um pódio, o quinto seguido nas últimas cinco etapas. E tome shoey no pódio (mas o Bottas não aceitou).

Para o campeonato, a verdade é que Vettel tirou proveito da penalidade de Hamilton pela troca de câmbio e abriu mais um pouco mais na classificação do mundial. Mas o resultado de Hamilton, o quarto lugar, também não foi ruim, dadas as circunstâncias. Raikkonen ficou devendo um pouco, de novo.

Ótimo resultado de Grosjean, que estava também aquém do que pode para o time. O sexto lugar foi o melhor que poderia ter acontecido para ele. Os dois carros da Force India, de novo, pontuaram, assim como os dois carros da Williams, diminuindo um pouco o vexame que se prenunciava depois dos treinos.

Semana que vem Hamilton corre em casa, e precisa aproveitar a chance de diminuir a diferença para Vettel, senão o campeonato de pilotos pode ir para o piloto alemão da Ferrari, como aconteceu nos anos de Schumacher em Maranello.

Torcida não ganha jogo, ruim para Verstappen.

Torcida não ganha jogo, ruim para Verstappen.

Ao desligar dos motores…

– Com a vitória, Bottas está mais perto de Hamilton no campeonato do que este de Vettel. Será que Bottas ainda tem alguma esperança brigar pelo título? Acho que não, mas se Hamilton e Vettel voltarem a se enroscar, uma teceira vitória do finlandês o colocaria muito bem posicionado no mundial;

– Começa o agito mais forte da dança das cadeiras para 2018. O nome de Raikkonen está na boca do sapo;

– Muitos falam de uma saída de Alonso, seja para a Indy, para um ano sabático, para Hollywood, mas também há rumores de que o espanhol voltaria para a Ferrari, exatamente no lugar de Raikkonen. Não acredito, mas não acho impossível. Ricciardo e até Rosberg (é mole?) são nomes fortes também na casa vermelha;

– Que praga que a torcida brasileira jogou no Verstappen, não?;

– Haviam setores nas arquibancadas bem definidos para torcer para este ou aquele piloto. Os que empunhavam as bandeiras da Finlândia pareciam, sem ofensa, terem saído de um bingo;

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

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