Pilotos tem palavra, e ponto(s).


Dobradinha da Ferrari põe folga para Vettel na liderança do Mundial, mas Hamilton mostrou que é sujeito homem e Bottas foi ao pódio em seu lugar. Alonso também brilhou, fez a melhor volta e virou garoto-propaganda.

Massa vetado.

A Hungria não traz boas recordações para Felipe Massa, definitivamente. Não bastasse uma quebra de motor em 2008 quando venceria, e o terrível acidente que quase lhe tirou a vida em 2009, o brasileiro acabou vetado pelo departamento médico da categoria por sentir, na sexta e no sábado, muita tontura ao final dos treinos livres, ficando de fora, inclusive, do treino oficial. Vertigem ou labirintite viral são as causas mais prováveis. Em seu lugar, treinou o piloto reserva da equipe, Paul di Resta, que retornou a categoria depois de quase quatro anos.

Surpresa também foi o domínio de Ricciardo, de Red Bull, na sexta-feira. Daniel Ricciardo foi o dono do dia, mas sempre teve uma Ferrari em seu encalço, enquanto os dois carros da Mercedes não tinham um desempenho tão forte.

No sábado, o domínio foi dos carros da Ferrari, e Vettel mostrou que estava muito a fim de serviço e fez não só o melhor tempo pela manhã, como também no treino oficial. E, melhor ainda para ele, foi ter garantida a presença de Kimi Raikkonen ao seu lado, montando uma primeira fila vermelha. Na segunda fila, melhorando o desempenho, os dois carros da Mercedes, só que Bottas à frente de Hamilton. Seguindo a tendência de filas por equipes, a terceira ficou com a Red Bull, que não mostrou a mesma força do dia anterior. Verstappen ficou à frente de Ricciardo desta vez.

Largando na frente para na frente chegarem. Só deu Ferrari na Hungria.

Largando na frente para na frente chegarem. Só deu Ferrari na Hungria.

Nico Hülkenberg largaria em sétimo, mas uma troca de câmbio lhe custou cinco posições no grid, jogando o alemão para a décima segunda posição apenas. Assim, a quarta fila também teve carros da mesma equipe, desta vez da McLaren. Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne fizeram um bom treino em um circuito que lhes favoreceu. Carlos Sainz e Jolyon Palmer. Justo o Palmer, que deu uma visitada no guard-rail na sexta feira.

A maior surpresa talvez tenha sido a ausência dos carros da Force India entre os dez primeiros. Eles ficaram na décima primeira (Ocon) e décima terceira posições (Pérez), justamente cercando Hülkenberg, como dissemos antes. Isso também só aconteceu porque a decima terceira posição pertenceria a Daniil Kvyat, que atrapalhou alguém durante o treino e perdeu três posições. Aliás, está prestes a ficar uma prova fora de tantos pontos na carteira que já tem.

Grosjean e Magnussen, então, largaram a frente de Kvyat, e nas últimas posições ficaram Lance Stroll, Pascal Wehlein, Paul di Resta e Marcus Ericsson, como sempre, diga-se.

A chance de Vettel se aliviar no campeonato estava 50% realizada.

Os touros se estranharam logo de cara

Calor imenso e uma torcida ainda mais quente na hora da largada do GP da Hungria deste ano. Vettel, largando por fora, manteve a ponta e foi muito bem escoltado por Raikkonen, que segurou o ímpeto de Bottas. Hamilton ia caindo para a sexta posição porque os carros da Red Bull já haviam deixado o inglês para trás. Porém, na curva dois, Verstappen errou a freada e acabou espalhando demais na curva e atingindo com bastante violência a lateral do carro de Ricciardo. O que parecia um pneu furado se mostrou na verdade um vazamento de fluido que fez com que o australiano rodasse e, por muito pouco, não fosse atingido pelos carros que vinham no fundo do grid.

Vertappen e seu crime. Culposo.

Vertappen e seu crime. Culposo.

Foi fim da linha para Ricciardo, que ao voltar caminhando aos boxes já demonstrava muita irritação, confirmada nas suas declarações ainda durante a desenrolar da corrida. E com pista suja e carro parado no meio dela, o safety car se fez necessário. Julgado pelos comissários, Verstappen tomou um penalty de dez segundos a ser cumprido quando de sua parada nos boxes para troca de pneus.

A largada teve alguns toques menores, mas nenhum deles mudou a história da corrida. Depois de um pouco de pó na pista para evitar que alguém escorregasse, a prova reiniciou na volta seis com ataques mais contundentes de Hamilton sobre Verstappen e de Alonso sobre Sainz Jr. Na briga dos espanhóis, Sainz chegou a colocar Alonso para fora da pista, mas não houve nenhum dano material, digamos.

Os dois carros da Force India já estavam na zona de pontos, como tradicionalmente vem acontecendo no mundial, e desta vez, os dois carros da McLaren também estavam entre os dez melhores, mostrando o bom chassis que realmente tem. Alonso andava na sétima posição.

A corrida entrou em um regime, sem que ninguém ameaçasse ninguém, até que Grosjean decide entrar nos boxes para seu pit-stop. O problema maior na parada do piloto da Haas foi que não conseguiram apertar direito a roda traseira esquerda, deixando o piloto sem possibilidade de voltar aos boxes a abandonando no meio de sua volta de retorno a pista. Culpa clara de quem liberou Grosjean antes do serviço completo.

O ritmo dos carros da Ferrari era muito bom, sem dar chance para os Mercedes. Raikkonen chegou a se aproximar bastante de Vettel quando Bottas decide fazer seu pit. O trabalho não foi grandes coisas, mas quando na volta seguinte Hamilton fez sua parada e foi 1s mais eficiente, o ritmo de Bottas já era tão bom que o finlandês conseguiu manter-se à frente do companheiro de equipe.

Claro que Vettel teria a preferência para parar primeiro na Ferrari, e foi o que ele fez. Logo na volta seguinte, assim como aconteceu com na Mercedes, foi a vez de Raikkonen fazer sua parada, dando neste momento a liderança provisória para Verstappen.

Bottas abrindo a porteira, dando a senha do cartão e prometendo casa, comida e roupa lavada.

Bottas abrindo a porteira, dando a senha do cartão e prometendo casa, comida e roupa lavada.

E os espanhóis não se largavam. Nem mesmo na hora de irem para o pit-stop, Sainz e Alonso se desgrudaram. Entraram e voltaram juntos, mas o bicampeão, mesmo penando um pouco e tomando um “x” de Sainz, assumiu a sexta posição.
Após os pits, Vettel começou a viver um drama. Além da melhora no desempenho dos carros da Mercedes, notoriamente, o carro do alemão começava a apresentar um problema de dirigibilidade. A orientação foi para que o piloto alemão evitasse atacar muito as zebras, o que poderia afetar a suspensão do seu Ferrari. Raikkonen, sem maiores problemas, se aproxima muito, mas o mesmo aconteceu com os carros da Mercedes. Em determinado momento, a diferença entre os quatro primeiros colocados era de apenas cinco segundos. Virtualmente, eram os líderes, porque Verstappen ainda tinha que parar e pagar a penalidade de dez segundos por fazer o homem mais sorridente do mundo fechar a cara. O holandês parou, enfim, na volta 42, voltando em quinto lugar depois de seu “manequim challenge”.

Stoffel Vandoorne vinha se mantendo bem na prova, mas parece que o mecânico que levanta o bico do carro estava devendo um dinheiro para ele e o piloto do carro 2 resolveu dar um susto no cara, chegando muito forte para sua parada de pit-stop. O resultado foi que o carro ficou muito tempo no chão, já que o mecânico acabou deslocado e deve ter ficado assustado também. Vandoorne saiu, momentaneamente, da zona de pontos.

Pelo rádio (ah, o rádio), Hamilton dizia que tinha mais carro que Bottas e pedia para a equipe deixa-lo passar e ir para cima de Raikkonen. Na Ferrari, por sua vez, o mesmo Raikkonen dizia algo como “pessoal, vocês não acham que é melhor eu passar meu companheiro, já que ele está lento?”. Sabe como é quando se precisa renovar contrato.

Hamilton, um homem de palavra.

A Mercedes deu sinal verde para Hamilton e disse que ele tinha algumas voltas para tentar apenas. Já, na Ferrari, a orientação era para que Raikkonen segurasse quem viesse atrás, como fiel escudeiro apenas. Pouco depois, Bottas abriu escancaradamente para Hamilton. Mas foi tão descarado que, Bottas parecia que iria abandonar a corrida.

A prova se encaminhava para o final e, mesmo com mais carro que Raikkonen, Hamilton não conseguia ter ação de ultrapassagem sobre Raikkonen, que se mantinha fiel na atividade de escoltar Vettel para a vitória.

Paul di Resta no lugar de Felipe Massa. Um chuchu diet.

Paul di Resta no lugar de Felipe Massa. Um chuchu diet.

Lá atrás, Magnussen e Hülkenberg protagonizaram uma disputa bem acirrada. O dinamarquês mandou o alemão da Renault lá pra fora sem piedade, mas não foi nem punido pelos comissários. Hülkenberg, que lutava para entrar na zona de pontuação, acabou terminando a corrida em último, duas voltas atrás do líder, mesmo abandonando. Paul di Resta, que correu de maneira solitária, foi outro que abandonou antes do fim. Não comprometeu, mas também não fez nada demais, mostrando que Felipe Massa saiu no lucro em não correr neste final de semana.

A Mercedes dizia para Bottas para que não ficasse muito para trás em relação à Hamilton, já que se fosse o caso da devolução da posição, ele deveria estar por perto. Bottas estava tanto para trás que Verstappen chegou perigosamente, enquanto Hamilton estava lá na frente ainda brigando por uma posição melhor que o terceiro lugar.

Última volta e Vettel se segurava na ponta, mesmo mais lento nitidamente que seus adversários mais diretos, Raikkonen e Hamilton. E assim seguiu até a bandeirada, com Vettel em primeiro, Raikkonen fechando a dobradinha da Ferrari e Ham… Não, não! Bottas foi quem apareceu para cruzar a linha em terceiro, com Hamilton se colocando entre ele e Verstappen na última curva. Quem apostou que Hamilton seguiria com o terceiro lugar se enganou feio!
Em sexto lugar, e com direito a melhor volta da prova, Fernando Alonso, que completou mais um aniversário durante o final de semana na Hungria e ainda roubou a cena ao final da prova posando para foto sobre uma pintura sua com a imagem eternizada dele descansando na cadeira, desejando boas férias à todos.

Completando os pontuadores deste GP, Carlos Sainz em sétimo, os dois carros da Force India em oitavo e nono, com Pérez e Ocon, e o outro carro da McLaren, Vandoorne, que conseguiu se recuperar daquele pit-stop desastrado.

Vettel aproveitou bem a corrida antes das férias para respirar mais aliviado na ponta da tabela, agora com 14 pontos de diferença para Hamilton. Pode colocar parte disso na conta de Raikkonen, mas é para isso que ele está lá. Bottas, tão submisso quanto, pode ser fundamental para o título de Hamilton.

Fernando Alonso sabe como aproveitar cada flash.

Fernando Alonso sabe como aproveitar cada flash.

Ao desligar dos motores…

– Que moral da Mercedes e de Hamilton depois do dia de hoje. “Três pontos podem custar o campeonato, mas temos que manter nossos valores”. Com esta frase de Toto Wolff, a Mercedes deu um tapa na cara da Ferrari;

– Treta 1: Ricciardo e Verstappen. O holandês pediu desculpas pelo erro que custou a corrida de Ricciado na primeira volta. Já o sorridente australiano disse que esperaria para ver se ele agiria de acordo com a idade ou se assumiria a besteira como homem. Nossa…;

– Treta 2: Magnussen jogou Hülkenberg para fora, fato. Enquanto o dinamarquês dava entrevistas ao final da prova, o alemão da Renault chegou por trás dele e foi irônico, dizendo para que ele continuasse assim. O que o Magnussem respondeu? “Suck my balls”. Ou seria “halls” e eu fui traído pelo sotaque?

– A Fórmula 1 precisa de Fernando Alonso. O que será feito para que ele tenha um carro competitivo ano que vem eu não sei, mas até mesmo uma Red Bull lhe cairia bem, não?;

– Felipe Massa deve retornar na Bélgica, sem problemas. A Fórmula 1 ficou sem nenhum representante brasileiro em corridas depois de 35 anos. Será que já é para se acostumar?;

– Por enquanto, nada de Kubica.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

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