Que bonito é


Vettel vence de ponta a ponta, mas é Hamilton quem rouba a cena e faz uma corrida memorável, mesmo chegando em quarto lugar. Já Felipe Massa teve direito a uma segunda e também marcante despedida em casa.

Da pole para os boxes

Existem corridas que a gente não vê a hora que acaba. Outras, que a gente nem viu que já tinha acabado. Mas tem outras que são tão boas que a gente gostaria que tivesse uma prorrogação de algumas voltas, como se algum juiz pudesse dar mais algumas voltas de acréscimo. Lembrando o futebol, inglês de nascença e brasileiro de coração, o GP do Brasil de 2017 foi assim, com a torcida vibrando o tempo todo.

Toda esta emoção veio com um anticlímax no sábado, durante o treino oficial.

Sob a sempre presente ameaça de chuva que circundava o autódromo paulista, Hamilton foi o primeiro a ir para a pista, respaldado pelo excelente desempenho nos treinos livres. Era apenas para confirmar uma pole que já era bem previsível tamanha a diferença de rendimento do inglês para os demais competidores. O tetracampeão só não seria pole se algo de errado acontecesse.

Confiante, Hamilton saiu abrindo caminho e logo no início da volta cronometrada havia uma laranjinha no caminho. Ou melhor, a curva do Laranjinha, que não foi contornada por Hamilton, de pneus ainda frios. Uma bela escorregada nas quatro e uma bela pancada na lateral do Mercedes deixaram Hamilton fora do treino classificatório praticamente quando este não havia nem começado.

Cadê aquela largada precisa, hein Bottas?

Cadê aquela largada precisa, hein Bottas?

Isso significava que mais quatro pilotos seriam ceifados no Q1, ou melhor, os dois carros da Sauber e mais dois. Neste caso, além dos azuis e dourados, Pierre Gasly e Lance Stroll. Stroll não conseguia acertar o carro, ao contrário de Felipe Massa, que fez o quarto tempo no Q1. A diferença entre o primeiro e o último era de apenas um segundo e meio, no curto e rápido circuito brasileiro.

Uma das surpresas no Q2 foi a eliminação de Esteban Ocon, juntamente com os dois pilotos da Haas, Brandon Hartley da Toro Rosso e Stoffel Vandoorne, da McLaren.

Brigando pela pole, Vettel fez o melhor tempo no Q2, mas Bottas havia feito o melhor tempo no Q1, praticamente a mesma diferença entre ambos. E o equilíbrio era tanto que, ao cruzar a linha de chegada já com o cronômetro zerado e o melhor tempo do final de semana, melhorando ainda mais a sua marca do Q2, Vettel achava que ninguém o superaria.

Só que Bottas, de repente, resolveu colocar uma pimenta na disputa pelo vicecampeonato e baixou o tempo do piloto da Ferrari em trinta e oito milésimos. Só. A frustação de Vettel batendo no volante foi flagrada, e o alemão disse que até poderia ter feito a pole, que um errinho aqui e outro ali acabaram por lhe deixar no lado sujo da primeira fila.

E nenhuma grande surpresa entre os cinco primeiros, ou seja, Raikkonen, Verstappen e Ricciardo vieram na sequência. O problema para Ricciardo era que a Red Bull havia trocado componentes do motor e largaria apenas na décima quarta posição.

Sem a presença de Ocon por perto, Pérez foi largar lá na frente, em quinto, com Fernando Alonso em um excelente e comemorado sexto lugar, real.

Massa e Alonso fizeram um lindo duelo durante toda a prova.

Massa e Alonso fizeram um lindo duelo durante toda a prova.

Separados por um décimo de segundo, Nico Hülkenberg e Carlos Sainz, em sétimo e oitavo lugares, e logo atrás deles, Felipe Massa, muito, mas muito louco da vida com o Sainz. É que Massa vinha em sua tentativa e foi atrapalhado por Sainz. O brasileiro chegou a acusar o piloto da Renault de ter feito isso de propósito, alegando uma vingança sobre o que Massa havia feito nos treinos livres. O fato é que Sainz nem punido foi.

Como os pingos de chuva do sábado não chegaram durante a tomada de tempo e a previsão da meteorologia para domingo era de muito sol e calor, a corrida tinha um script definido: Hamilton e Ricciado em corrida de recuperação e Vettel brigando com Bottas pela vitória.

Apatia de Bottas, decisão de Vettel

Quem disse que o vicecampeonato não tem importância? Para Vettel parece que tem, e muita.

Vettel não quis nem saber por onde Bottas iria bloquear sua tentativa de ultrapassagem e, mesmo pelo lado mais sujo da pista, mergulhou no “S” do Senna para assumir a liderança da prova.

No fundo do grid, Ricciardo recebeu um toque do Vandoorne, mas a culpe não foi do piloto da McLaren. O Magnussen foi quem deu um belo “tapa na orelha” do carro do belga que, sem espaço, tocou em Riccirado, que acabou rodando na entrada da curva do sol, onde pedaços de carro ficaram pelo caminho. Ao que tudo indicava, o safety-car seria acionado, mas ainda deu tempo para uma “contra-prova”, ou melhor, mais um acidente entre Grosjean e Ocon na curva do Laranjinha, acabaria por decretar a entrada do safety-car, obrigando os pilotos a passarem pelo pit-lane para que a pista fosse limpa de acordo.

Hamilton, que havia largado dos boxes, com pneus mais duros, aparecia em décimo sexto, ainda muito atrás de Vettel, claro. E nessa passada pelo pit-lane, Grosjean (que voltou, ao contrário de Ocon) Wehrlein e Ricciardo já faziam seus pit-stops.

Alonso, mas principalmente Massa, largaram muito bem, e foram eles que proporcionaram um belo duelo na relargada, com vantagem para o brasileiro que assumia a quinta posição na corrida. Pérez foi quem ficou mal na largada e não aparecia nem entre os dez primeiros.

Hamilton, e Ricciardo, como prenunciado, vinham ganhando posições de maneira rápida. O inglês já aparecia em décimo segundo, e o negócio do Ricciardo era se certificar que nenhum comprometimento no carro havia acontecido com o toque na largada. Isso era provado a cada volta.

Hamilton só não fez chover hoje. O quarto lugar foi pouco perto do desempenho na pista.

Hamilton só não fez chover hoje. O quarto lugar foi pouco perto do desempenho na pista.

Quando Hamilton chegou em Pérez, já pouco mais recuperado da péssima largada e tentando segurar a sétima posição, o piloto da Merecedes mostrou todo o seu talento e enfiou uma ultrapassagem por fora sobre o mexicano no “S” do Senna. E olha que ambos são equipados com motor Mercedes, mas os “braços” não são os mesmos, mesmo.

Mais um pouco e Hamilton chegou em Alonso e Massa, e passou por ambos para assumir a quinta posição na prova, com a corrida apenas no seu primeiro terço praticamente. A determinação de Hamilton era tanta que ele perguntava para a equipe qual era a sua diferença para Vettel, que liderava, e não para Verstappen, na teoria, o próximo a ser deixado para trás.

Bottas foi quem puxou a fila dos pit-stops daqueles que lideravam a prova. Um a um, Bottas, Vettel e Verstappen e também Raikkonen fizeram as suas paradas. Na volta de número 30, a liderança era de Lewis Hamilton.

Hammer time por 71 voltas

Claro que a posição de Hamilton era provisória, mas todos queriam saber quando Hamilton colocaria os pneus macios para voar ainda mais e buscar um pódio absolutamente possível ou até mesmo uma vitória épica.

Acontece que Hamilton dizia que os pneus estavam ok, e seguia baixando o tempo de volta. O maior problema era saber lidar com os retardatários, principalmente quando encontrados no miolo do circuito. Um deles foi Lance Stroll, que brigava com Grosjean por uma posição na mesa de jantar apenas, e fez com que Hamilton perdesse mais de um segundo e meio atrás dele. Se tivesse parado um pouco antes…

A Mercedes fez a parada de Hamilton na volta 44 (só para reforçar o marketing, acho). Riccirado também parou de novo. Era o momento de voar na pista e ir buscar os líderes.

Enquanto Massa seguia entre um segundo e um segundo e meio a frente de Alonso, Hamilton chegou em Verstappen no “S” e não conseguiu a ultrapassagem logo de cara, mas foi fazer isso lá na freada da reta oposta, em frente a galera, para delírio dos presentes no famoso setor “G” de Interlagos. Neste momento faltavam onze voltas e a diferença entre os tetracampeões era de nove segundos apenas, com Hamilton baixando o tempo.

Para o piloto da Mercedes, fazer a volta mais rápida da prova era o óbvio, mas eis que Verstappen se queixa que o comportamento de seus compostos não estava lá essas coisas, pede para entrar, mas a equipe não autoriza, em princípio. Porém, logo em seguida, o holandês faz sua parada. Em quinto entrou e em quinto saiu dos boxes, com Ricciardo logo atrás, e não demorou para pulverizar o tempo de volta até chegar a 1’11”044 e estabelecer novo recorde para o circuito.

Massa teve o apoio da torcida local em sua despedida definitiva em seu país. Valeu ter optado por correr por mais um ano, segundo ele.

Massa teve o apoio da torcida local em sua despedida definitiva em seu país. Valeu ter optado por correr por mais um ano, segundo ele.

Vettel, Bottas, Raikkonen e Hamilton já apareciam na mesma tomada de câmera, mas a ultrapassagem de Hamilton, tão esperada para colocá-lo no pódio, não aconteceu. Algumas tentativas foram não foram bem sucedidas, travando roda e tudo. Vale-se destacar também a boa defesa de Raikkonen, que garantiu um lugar no pódio com o terceiro lugar.

Vettel venceu de ponta a ponta e praticamente assegurou o vice campeonato de 2017. Bottas, com um foguete nas mõas, sequer ameaçou Vettel em nenhuma das setenta e uma voltas do GP, e esta passividade não é dos grandes campeões.

Verstappen foi o quinto e Ricciardo foi o sexto, mas as atenções do público estavam todas em Felipe Massa, em sua última volta com um carro de Fórmula 1 pelo circuito de Interlagos, e tendo Fernando Alonso e Sérgio Pérez colados. Segurou de todo o jeito e cruzou a linha de chegada em sétimo, posição tida como a melhor possível atrás das três grandes equipes.

Fernando Alonso, combativo durante toda a corrida, aplaudiu o brasileiro após a bandeirada e no pit-lane, quando o Williams 19 chegou trazendo uma bandeira verde, em alusão a bandeira do Brasil. Muito bonita a atitude de Alonso. Hülkenberg fechou os dez primeiros.

Uma bela corrida em Interlagos, com uma despedida tão emocionante quanto a do ano passado para Felipe Massa. Hamilton foi monstro e o show de Interlagos de hoje ficará para a história. Só faltou o champanhe para ele. E Vettel, tão contestado pelos últimos resultados e por suas atitudes, mostrou que é um grande piloto, sem a menor sombra de dúvida.

Só resta Abu Dahbi, mas depois da corrida de hoje, dá vontade de prolongar um pouco o campeonato também, não?

Ao desligar dos motores…

– George Russell, inglês de 19 qnos, estreou como reserva da Force India na sexta e impressionou pelo bom treino. Pode ser mais um menino de espinhas no rosto a entrar para a categoria em breve como titular;

– A violência no entorno do circuito fez equipes ficarem sob a mira de armas durante o final de semana. Previsível, inaceitável e vergonhoso, mas é a realidade do país e da região, principalmente;

– Linda a mensagem de Felipinho Massa ao pai na volta de retorno aos boxes depois da corrida. Orgulhoso, disse que seguirá apoiando o pai onde ele for. E para fechar de maneira inesquecível, Massa levou Felipinho ao pódio, com os displays mostrando a bandeira brasileira, para ser ovacionado pelo público após ser entrevistado por Rubens Barrichello;

– Hoje, Stroll voltou um pouco no tempo;

– Anitta cantando o Hino Nacional, retalhado a pedido da organização para que coubesse no tempo pré-determinado. Muito ruim, lembrou a Vanusa.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

3 Responses

  1. Glauco de F. Pereira says:

    Convenhamos, Lauro, claro, sem desmerecer a corrida de Hamilton, que todo o “trabalho” nas inúmeras ultrapassagens que o levaram até a colocação final, foram em muito facilitadas por todo o duplo imbróglio da primeira volta. Ter todo o grid junto, como consequência da dupla bandeira amarela na primeira volta deu uma pequena ajuda a Hamilton no escalar o pelotão até chegar mais próximo dos líderes.

    Se não fosse isso, não creio, mesmo com no mínimo os 30 cv de motor disponíveis a mais em comparação com o “planeta F1” , chegaria a posição em que terminou a corrida.

    Mas nada disso tira o brilho de sua pilotagem neste ano. Realmente, se levarmos em consideração que até a 13ª etapa Vettel liderava o campeonato, e, depois disso, Hamilton o ultrapassou e levou o título por antecipação faz jus a aquele que hoje é o nome a ser batido.

    O ano de 2018 será uma disputa (esperamos, claro…) dentre aquele que poderá ser considerado o melhor, tirando Schumi. Afinal, teremos dois detentores de quatro títulos mundiais e que praticamente dividiram a estória da última década na categoria.

    Quanto a despedida de Massa, creio que foi uma despedida honesta do GP Brasil, com sua colocação como melhor do “resto” da F1, e merecida por toda sua estória na F1. Afinal de contas, ter dividido boxes com quem dividiu e ter chegado a uma quase conquista do mundial, vencido por Hamilton na ocasião, só comprova o seu valor.

    O público brasileiro, em quase sua totalidade, não valoriza aqueles que fazem parte do campeonato e que, por um motivo ou outro, não conseguem se sagrar campeões.Talvez, com o passar do tempo, em perspectiva, muitos irão valorizar a carreira de Massa.

    Mas, ao chegarmos ao fim desta temporada, já que no ano que vem, com quase certeza, não teremos um brasileiro disputando, talvez alguns sentirão falta da presença de um piloto brasileiro no grid. Quem sabe neste momento possam perceber que o simples fato de fazer parte desta elite já é motivo de muita realização pessoal e profissional…

    Se o fim de uma era, que vem desde Emerson, Wilson, o “Barão”, não servir de momento de reflexão para que a CBA implemente e apoie categorias de base do nosso automobilismo, o que poderia ser apenas uma entressafra pode se mostrar uma pausa um pouco maior.

    Afinal de contas, quantos pilotos, num horizonte de tempo médio, podemos dizer que seguem em direção a disputa por uma vaga no grip? E mais, dos que hoje porventura ainda almejam essa posição, quantos destes tem algum tipo de apoio da CBA?

    E não digo apoio financeiro, mas, por parte da CBA, qual a categoria de base hoje existente que um muleque que almeje chegar a F1 pode resolver almejar? Infelizmente, nenhuma.

    Enfim, pra quem tem algum percentual de gasolina no sangue, vejo com um pouco de “paúra” não termos um brasileiro no grid. Mas, e digo isto inicialmente por mim, mas creio que para a totalidade do que participam do “Bolão”, não será impedimento ou motivo de desânimo para participar dessa “confraria” de apostadores/torcedores/, que faz com que o interesse não diminua em nada.

    E então, Lauro, pra você, quem em breve irá dividir a fila com Fangio? Ou ainda é cedo pra apostar?

    • Grande Glauco!
      Eu acho que o safety-car poderia ter feito diferença se ele tivesse conseguido o pódio. Sem o safety-car, em minha opinião, ele teria sido o 4o colocado do mesmo jeito.
      Bom, falando de penta, acho que não dá pra prever. O momento é de Hamilton, mas Vettel não é tetracampeão por acaso. A máquina ajuda sempre, quem fizer a melhor combinação, leva.
      O que eu gostaria? Ver uma disputa de título entre Alonso e Verstappen, com Hamilton e Vettel dando a devida valorizada ao título de um dos dois. Não que eu ache que Verstappen mereça mais que Ricciardo, mas olhando o lado “história”, acho que seria legal.
      Paixão pura, só isso.
      Grande abraço e obrigado pelo prestígio de sempre.

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