Pista velha é que faz corrida boa


Um dia ruim para a Mercedes, péssimo para a Ferrari, mas uma corrrida de dar gosto, que teve vitória maiúscula de Verstappen e o primeiro pódio da carreira para Pierre Gasly e para Carlos Sainz Jr, que largou em último. É amigos, o GP do Brasil rendeu.

Verstappen se dá bem em Interlagos

Chegando todo mundo para o GP do Brasil com a maioria das decisões já tendo dono era uma possibilidade de termos uma corrida bem divertida. Samba e caipirinha no cardápio.

Hamilton dizia que queria ganhar não importava como. Mandou confeccionar um design especial do seu capacete com a bandeira do Brasil no topo e as cores do capacete de Ayrton Senna na parte de trás do casco, criação do designer brasileiro Rai Caldato, que assina o capacete de Hamilton desde 2017. Uma empatia muito grande com a torcida que me fez chamá-lo de “Britshilian”.

Quem tinha o que disputar mesmo eram Verstappen, Vettel e Leclerc. Em jogo, a terceira posição do Mundial de pilotos. Para Vettel, apenas o fato de não ficar atrás do companheiro Leclerc justamente no ano de estreia do mesmo pela escuderia italiana, que tem o alemão desde 2015. Para Verstappen, como ele mesmo disse, o terceiro é melhor que o quarto lugar e, sendo que ficar atrás dos Mercedes é preaticamente ser campeão do resto, é um bom título. Para Leclerc, a afirmação de que ele é o cara que a Ferrari precisa para tentar ser campeã novamente.

A boa largada de Verstappen e o bote de Hamilton sobre Vettel logo nos primeiros metros.

Só que o Leclerc já tinha um revés para administrar. Em virtude do problema de motor que teve no treinio livre para o GP dos Estados Unidos, uma troca de motor seria feita e o piloto da Ferrari #16 iria arcar com 10 posições de penalidade no grid.

Com Leclerc um pouco “fora” da disputa, não é que os outros dois pilotos que disputam o terceiro lugar ficaram com a primeira fila? E a pole desta vez ficou com Max Verstappen, com a Red Bull mostrando muita força e consistência desde os treinos livres sob chuva na sexta-feira, quando Albon foi o melhor.

Hamilton não queria ficar fora da festa e conseguiu a segunda fila, que acabou por dividir com Bottas porque Leclerc, então o quarto melhor classificado, foi parar na décima quarta posição obedecendo o regulamento. A terceira fila tinha Albon e Gasly, os dois pilotos que fizeram um “swap” no meio da temporada em suas equipes.

Na quarta fila, um surpreendente Grosjean com o sétimo tempo. E a Haas parecia realmente bem melhor que nas etapas anteriores, porque Magnussen com o outro carro preto e dourado ficou em nono. Entre eles, também surpreendendo, Kimi Raikkonen. E fechando os dez primeiros, apareceu a primeira McLaren, com Norris.

Se Raikkonen ficou entre os carros da Haas, seu companheiro Giovinazzi ficou entre os carros da Renault, com Ricciardo em décimo primeiro e Hülkenberg em décimo terceiro. Leclerc fechou a sétima fila em décimo quarto, como dissemos.

Pérez fez companhia para Kvyat na oitava fila, e olha que o russo devia estar meio envergonhado de correr no país do sogro tricampeão mundial, Nelson Piquet, e nem fazer próximo do rendimento de seu companheiro Gasly. Stroll só foi melhor que os dois carros da Williams, e Kubica seria o último não fosse o problema de Sainz Jr, que acabou ficando sem tempo cronometrado por um problema no carro no Q1, sendo obrigado a largar em último.

Largada limpa, e a ascensão de Leclerc

Verstappen não deu chance para ninguém na largada, tratando de fechar a porta para o pequeno atrevimento de Vettel. Digo pequeno porque o alemão já se deu conta, logo nos primeiros metros, que o eisbein ainda não tava no ponto. Acontece que, quem larga do lado de fora da pista de Interlagos, tem melhor tração. E foi aí que Hamilton se deu bem logo na saída do “S” do Senna, por fora, e assumiu o segundo lugar que pertencia a Vettel.

Até os carros da Alfa Romeo resolveram andar em São Paulo.

Bottas e Albon ficaram por ali mesmo, e Gasly era o sexto colocado. Mais no fundo do grid, um enlouquecido Leclerc começava seu trabalho de recuperação. E o show do monegasco iria render bastante. Ele, com Norris e Ricciardo, fizeram quase uma volta e meia se alternando lado a lado como poucas vezes vimos este ano.

A sorte de Ricciardo, porém, parecia meio limitada, porque na volta oito, ele acabou deixando para frear um pouco tarde demais na freada da reta oposta quando brigava com Magnussen. O dinamarquês da Haas viu o mundo girar mas, mesmo assim, conseguiu voltar para a pista. Ricciardo também continuou, mas teve que parar logo cedo para trocar a asa dianteira quebrada. E, sem merecer (pelo menos sob o meu ponto de vista), levou cinco segundos de penalidade. Leclerc já era o sétimo quando Ricciardo parou.
Corrida pegada, todo mundo próximo. E começam as estratégias de pneus.

Hamilton surpreende e entra para a troca de pneus na volta 20. Isso acendeu a luz no time da Red Bull, que imediatamente chamou Verstappen para a sua troca na volta seguinte. Era a tática espelho. Se você está na frente, você segue a estratégia do seu adversário e, teoricamente, mantém a diferença. Isso se tudo der certo. E o Verstappen tomou um belo susto na saída dos boxes.

Robert Kubica, que tinha entrado nos boxes um pouco a frente do holandês, terminou seu trabalho e, como a Williams é a última equipe no pit-lane, Kubica saiu cheio de pressa (como se isso fosse mudar alguma coisa para ele) e quase, quaaaaase acertou o Verstappen, que já vinha embalado. Além disso, Verstappen ficou preso atrás do carro da Williams em todo o caminho de volta para a pista. Parecia que Hamilton estava com a sorte de campeão, ou melhor, de hexacampeão. Verstappen voltou atrás do inglês.

Mas nada de vida fácil para ninguém, nem mesmo para o campeão do ano. Leclerc que o diga.

O monegasco já era quarto colocado com as paradas dos líderes, mas viu os dois chegarem com tudo em seu retrovisor. Hamilton tratou logo de deixar Leclerc para trás, por fora, no mergulho. Mas o Verstappen deixou o piloto da Ferrari também para trás, poucos metros a frente, na subida do café. E o show de Verstappen deu sequência já na freada da reta, quando o holandês deu de ombros para piloto da Mercedes e passou com tudo, voltando para a “ponta” da prova, que na verdade ainda era a quarta colocação, uma vez que Vettel, Bottas e Albon ainda não tinham parado.

Hamilton não se deu por vencido e desceu a reta oposta no vácuo de Verstappen, mas o piloto da Red Bull segurou o ímpeto do inglês com precisão.

Duas relargadas de arrepiar na parte final da prova.

Vettel, Bottas e Albon, então, fizeram suas paradas nas voltas que se sucederam, exatamente na ordem em que estavam. Assim, os seis primeiros das três grandes equipes já com seus pit-stops feitos e nas seis primeiras posições, para alegria daqueles que apostam no resultado lógico.

Porém, estávamos em um dia em que o automobilismo voltaria a ter outros ingredientes que não apenas os infalíveis e burocráticos como tem acontecido nos últimos anos nas maiorias das corridas.

É bom lembrar que, por ter largado atrás, Leclerc optou por pneus mais duros no começo da prova, e nem por isso o piloto da Ferrari deixou de andar forte no início como dissemos. O seu pit-stop foi realizado apenas na volta 29, quase no meio da corrida. E quem também fez seu pit-stop tardio foi Carlos Sainz, que estava no meio do pelotão, já na zona de pontos.

E não é que a Mercedes começou a apresentar problemas?

Pois então. Com apenas quinze voltas após o seu primeiro pit-stop, Bottas retornou para mais uma parada, mostrando claramente que a escolha dos compostos não tinha sido a melhor. Hamilton parou duas voltas depois e Verstappen, com sua tática espelho, parou logo na volta seguinte depois de Hamilton.

Quando perseguia Leclerc, tentando recuperar a quinta posição, o motor do Mercedes de Bottas começou a soltar uma fumacinha discreta. Sem nenhum rádio dos boxes, o finlandês foi em frente, mas uma volta depois, na reta oposta, o carro apagou totalmente. Bottas, no embalo, levou o carro até o final da reta e o colocou em uma posição segura. No entanto, a direção de prova optou pela entrada do safety-car, e este ficou por longas voltas, sem motivo aparente.

Leclerc na frente. Vettel na frente. Ambos fora.

Durante e intervenção do safety-car, Verstappen e muitos outros pilotos optaram por colocar os pneus macios. Leclerc foi um deles também.

Bottas, Leclerc e Vettel fora

Na relargada, a ordem era Hamilton, Verstappen, Vettel, Albon e Leclerc. Só que já não existia diferença para Gasly, Grosjean, Sainz, Raikkonen e Giovinazzi, que completavam os dez melhores colocados.

E a relargada, faltando doze voltas, não poderia ser mais emocionante.

Sem a menor cerimônia, Verstappen foi com tudo para cima de Hamilton logo na freada do “S” do Senna, por fora, e tomou de volta a primeira posição na marra, na coragem e na habilidade. E mais uma vez Hamilton não se deu por derrotado e foi atrás de Verstappen até o final da reta oposta. Chegou a colocar o carro lado a lado, por fora, mas o holandês estava demais e não deixou o piloto da Mercedes retomar a liderança.

Albon estava na alça de mira dos dois carros da Ferrari, e também desceu a reta oposta tendo que se defender demais para ficar com o terceiro lugar provisório naquele momento.

E aconteceu a quebra da bolsa de apostas na volta 66. Isso porque Leclerc, que vinha com pneus mais inteiros, resolveu aprontar pra cima de Vettel no final da reta dos boxes, mergulhando com estilo e saindo a frente do companheiro de equipe. E aí é que Interlagos faz a diferença.

Mesmo a frente, Leclerc ficou com Vettel em seu vácuo na reta oposta, assim como aconteceu nas manobras entre Verstappen e Hamilton que eu já citei antes. E Vettel não queria de jeito nenhum deixar o monegasco escapar e tratou de colocar o carro do lado de fora, a direita do carro de Leclerc, lado a lado, para discutirem na freada do lago quem tinha mais pizza pra vender. Mas nem deu tempo.

Albon e Hamilton se enroscam na penúltima volta. Ambos fora do pódio por isso.

Vettel começou a empurrar Leclerc para a parte de dentro ainda no meio da reta, e o monegasco não fe muito esforço para tirar o carro dali, embora chegou a tirar um pouco. Todavia, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Se estes corpos são pneus, é provável que ele se danifique. E assim foi mais uma vez provado que a física está correta. Leclerc teve a suspensão dianteira direita quebrada e saiu direto para a área de escape no final da reta oposta. Já Vettel teve o pneu traseiro esquerdo furado e a borracha tratou de danificar a lateral do carro #5. Fim de prova melancólico para ambos. E novo safety-car.

E não é que o Hamilton foi para uma nova parada? Sim! Mesmo caindo para a tereira posição, Hamilton arriscou tudo para superar a dupla da Red Bull que liderava a prova e vinha para uma dobradinha improvável até então. E a relargada foi dada faltando apenas duas voltas para o final. Na subida da curva do Café, Verstappen segurou tanto o pelotão que parecia o típico trânsito das marginais paulistas.

Por meia volta, as posições não se alteraram com a relargada, mas Hamilton não podia perder tempo e acabou se animando demais para tentar ultrapassar Albon, no miolo. Resultado: Albon rodou e ficou atravessado na pista vendo todo o pelotão passar, enquanto Hamilton teve melhor sorte e, apesar de uma avaria na asa dianteira direita, seguiu na prova caindo para terceiro lugar por conta da ultrapassagem de… Gasly!

E chega a volta final daquele tipo de GP que a gente não quer que acaba nunca.

Hamilton veio disposto a recuperar o segundo lugar, já que não seria possível a vitória uma vez que Verstappen estava tranquilo e inteiro na ponta. Hamilton então, tentou a ultrapassagem na subida da curva da junção, saindo com mais tração e tomando a linha de dentro. Enquanto Verstappen cruzava a linha de chegada em primeiro, Hamilton e Gasly subiram a reta lado a lado, passaram pela entrada dos boxes lado a lado, e por meio carro, o segundo colocado foi Gasly, com o inglês em terceiro, formando o pódio.

Ainda sem receber punição, Hamilton queria o segundo lugar, mas Gasly foi destemido e cruzou em segundo por meio carro.

Em quarto, uma prêmio para a corridaça de Carlos Sainz, que apesar da “mãozinha” dada pelas duas entradas do safety-car, fez uma prova cabeça e com resultado gigante. Já estaria feliz, mas como bônus, o espanhol ainda foi promovido para o terceiro lugar porque Hamilton foi punido em cinco segundos pela sua manobra sobre Albon, caindo assim para o sétimo lugar.

Em quarto, então, chegou Kimi Raikkonen e, em quinto, seu companheiro Giovinazzi. Um excelente resultado para a Alfa Romeo e melhor colocação do italiano na carreira. Em sexto, se redimindo de uma classificação ruim, Ricciardo também foi outro que acabou herdando uma posição de Hamilton. Em oitavo chegou Norris, em nono Pérez, e em décimo, Kvyat.

Uma corrida que teve vários momentos de disputa, acidentes, quebras, e principalmente, ultrapassagens, presenteando o grande público que compareceu ao autódromo paulistano. Que venha Abu Dahbi então!

Ao desligar dos motores…

– Na minha opinião, o acidente entre os carros da Ferrari foi melhor do que a equipe dando ordens pelo rádio. Essa opinião também é do Odinei Edson, narrador da Bandnews FM. A causa? Chegar a frente do companheiro de equipe achando que ele aceitaria isso sem problemas. Se Vettel pensou isso de Leclerc ou Leclerc pensou isso de Vettel, tanto faz. Ambos erraram. Só que quem sai mais escoriado é Vettel;

– Tivemos o pódio mais jovem da história da F1! Com Sainz Jr oficialmente em terceiro lugar, a média foi de apenas 23.3 anos. A Fórmula 1 rejuvenesceu neste final de semana;

– Interlagos registrou o maior público em quase duas décadas e dois anos sem ter um brasileiro entre os pilotos. Isto é significativo;

– Albon foi procurado por Hamilton assim que deixou o carro no pit lane após o término da corrida. Ambos ainda de capacete, Hamilton foi se desculpar pela manobra que teria dado o primeiro pódio do Tailandês. E Albon, em suas redes sociais, fez questão de dizer que ainda terá muitas oportunidades para tomar chamapanhe no pódio. Atitude legal de ambos;

– Corrida impecável de Verstappen. Foi rápido, foi arrojado, foi preciso e inteligente. Se amadureceu mais rápido que o esperado, ainda não sei. Mas se tiver mais motor ano que vem…;

– Impecável também o trabalho de box da Red Bull, que em uma das trocas de Verstappen bateu o recorde em realizar a troca dos quatro pneus em 1.82 segundos. Espantoso!;

– A McLaren voltou ao pódio na Fórmula 1 (mesmo depois de quase todo mundo ter ido embora, ahahaha). Desde 2012 isso não acontecia;

– E os motores Honda, hein? A empresa japonesa faria dobradinha com a Red Bull, mas quis o destino que esta dobradinha de motores fosse com as suas duas equipes clientes. A arrancada final de Gasly, com pneus piores que Hamilton, na subida da reta principal de Interlagos para garantir o segundo lugar deixou claro que tá roncando forte o propulsor japonês.

– O título deste post é dedicado a Alessandra Alves, comentarista de Fórmula 1 da Bandnews FM São Paulo, a quem eu acompanho praticamente desde que me mudei para os Estados Unidos. Em um mundo tão masculino como o da Fórmula 1, ela, e também a excelente Juliana Cerasoli (repórter), dão um show de conhecimento e opinião ao lado do narrador Odinei Edson, Luis Fernando Ramos (o Ico) e de Fábio França.
A frease é dela.

Sainz comemorou o pódio quando já estava escuro, mas nem por isso menos feliz.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, trabalha há mais de duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de... carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 desde criança e colabora com o No Trânsito desde 2009.

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