Golaços


Cada ultrapassagem agora é como um gol. Não tivemos muitas, mas tivemos verdadeiras. E foi cada lance bonito que, desta vez, valeram o ingresso.

Fog

E nada de treino livre por causa da poluição, é mole?

Pois é. Oficialmente, o TL2 foi cancelado pelo mau tempo, porque o helicóptero médico não tinha teto para uma eventual emergência. Xangai é assim, céu denso, o sol parece luminária de bar, enfumaçado sempre. Pela manhã, raras voltas na pista molhada de circuito chinês.

Deu para aproximar mais os pilotos dos torcedores, pelo menos. E o sábado de incerteza teve, também, surpresas.

Como aconteceu no treino para o GP da Austrália, cinco carros de equipes diferentes foram ceifados no Q1. Verstappen teve problemas e acabou precocemente eliminado, assim como Jolyon Palmer, Esteban Ocon, Stoffel Vandoorne e Romain Grosjean. Para piorar, Palmer o Grosjean, que rodou durante a classificação, acabaram punidos com cinco posições no grid por não respeitarem a bandeira amarela após o acidente de Antonio Giovinazzi, que seguiu no volante de um dos carros da Sauber substituindo Pascal Wherlein. Pascal, pelo que se soube, teve um problema em uma das vértebras da coluna, e essa é a razão do alemão continuar afastado.

Não é incenso

Não é incenso

Surpreendente foram os dois carros da Sauber no Q2, só que apenas Ericsson podia treinar porque o Giovinazzi ainda estava recolhendo os cacos do seu carro. Claro que o sueco Ericsson foi o pior do Q2, sem surpresas, e ainda sobrou para Carlos Sainz, Magnussen e Alonso.

Não é que o Stroll passou para o Q3?! Pois é. O menino rico não foi além da décima posição, mas só por ter passado para o Q3 já começa a mudar um pouco sua imagem de pagante. Daniyl Kvyat foi o nono, logo atrás de Sérgio Pérez. Quem surpreendeu foi Nico Hülkenberg, que colocou sua Renault em sétimo lugar, pertinho do ex-companheiro Pérez. Parece que ainda estão na mesma equipe.

Sem Verstappen, Massa ficou com a sexta posição, atrás de Ricciardo. Boa colocação do brasileiro e boa também a classificação de Ricciardo. O problema é que a diferença entre o quarto colocado, Raikkonen, e Ricciardo, o quinto, foi de quase um segundo.

Nas quatro primeiras posições, intercalados, Mercedes e Ferrari, com mais uma pole para Hamilton, a 63ª da carreira, seguido de Vettel, que roubou o lugar na primeira fila de Bottas por um milésimo de segundo apenas. Os quatro primeiros prometendo uma bela briga na prova, mas viria mais gente para a festa.

Um pouco de confusão faz bem

Havia previsão de chuva para a hora da largada, mas o céu de Xangai estava apenas fechado quando todos os carros se alinharam. Havia, porém, chovido antes, e muitos trechos da pista estavam bastante úmidos, como a reta dos boxes, mas haviam vários trechos onde o asfalto já estava bem seco. Esta condição de pista é ideal para acontecer confusão, revelar estratégias e acionar ele, o safety-car.

Em décimo primeiro no grid, Carlos Sainz Jr era o que mais arriscava na largada. Todos os adversários de pneus intermediários e ele, malandrão de tudo, de pneus slick. Quem também arriscaria uma largada diferente era Jolyon Palmer, da Renault. Arriscar é modo de dizer, porque ele trocou a última posição no grid pela largada dos boxes com pneus slick também.

Onze voltas e Verstappen já era  o segundo colocado.

Onze voltas e Verstappen já era o segundo colocado.

Como o foco era nos primeiros colocados, ninguém viu o espanhol da Toro Rosso patinar mais que bailarino do Holiday on Ice na largada e cair para a última posição.

Apesar das condições instáveis da pista, todos largaram sem grandes incidentes. Bottas até que tentou tomar a posição de Vettel na largada, mas o alemão não deixou. Pouco mais atrás, Ricciardo conseguiu passar Raikkonen e Hülkenberg deixou Massa para trás.

De repente, um carro fora da pista. Quem? Quem? Quem? Raimundo Nonato! Opa, quer dizer, Lance Stroll. Mas antes de julgarmos o menino, é preciso dizer que ele tomou um chega pra lá legal do Sérgio Pérez, foi para a brita e não conseguiu voltar. Isento de culpa desta vez, Stroll acabou indo mais cedo para o colo do papai. Safety car virtual neste momento.

Massa ficava ainda mais para trás, e quem chamava atenção era Alonso e Verstappen. O espanhol aparecia em 8º enquanto o piloto da Red Bull já estava a sua frente, em sétimo, depois de largar na décima sexta posição. Só que, com o safety car virtual, muita gente foi para os boxes já para colocar pneus slick. Entre eles, Vettel, que caiu para a sexta posição. Na frente, Hamilton e Bottas lideravam, seguidos de Ricciardo, Raikkonen e Verstappen (olho nele, de novo). Sainz, depois de ver todo mundo passar por ele, já era o sexto.

Só que com pneus slick, segurar o carro nos trechos molhados não é tarefa fácil. Giovinazzi que o diga. Em um quase replay do que aconteceu nos treinos, o italiano da Sauber perdeu o controle da reta e deu uma bela estampada no muro. Aí, o safety-car deixou de ser virtual e passou a ser real mesmo, obrigando inclusive os carros a passarem pelo pitlane enquanto os detritos eram retirados.

Nisso, mais gente fazendo paradas, inclusive os líderes.

Hamilton conseguiu a proeza de fazer o pit stop e voltar na frente, seguido por Ricciardo, enquanto Bottas caiu para a quinta posição. Mas o finlandês da Mercedes estava em um dia, digamos, errante. Conseguiu a proeza de rodar durante o safety-car e foi parar na décima segunda posição. Que bonitinho.

Vettel e Ricciardo se tocaram, e foi bonito (sem duplo sentido, por favor)

Vettel e Ricciardo se tocaram, e foi bonito (sem duplo sentido, por favor)

Poucas voltas ainda e todo mundo queria saber se a corrida teria mais ultrapassagens do que a prova de abertura, na Austrália.

Pérez, Kvyat e Massa protagonizaram a primeira disputa mais dura, ainda com spray de água na pista. Mas o melhor estava por vir.

Verstappen fez questão de mostrar que a Fórmula 1 não vai ficar sem ultrapassagem se depender dele. Como se não bastasse todas as posições que galgara até aquele momento, o holandês foi com tudo para cima de Raikkonen e fez uma ultrapassagem na raça, bonita. É verdade que Raikkonen reclamava um pouco do carro, mas nada que desmereça a bela passada do piloto da Red Bull. E tinha mais. Isso porque mais algumas voltas e Verstappen chegou no companheiro de equipe e fez outra linda ultrapassagem, e parecia que tinha gás para ir pra cima de Hamilton. E, depois de ser ultrapassado por Verstappen, Ricciardo ficou na mira de Raikkonen, que trouxe com ele Vettel.

Enquanto Raikkonen seguia reclamando do carro, ao que parecia ser problema de motor ou na asa traseira, Hülkenberg tomava uma punição tripla por ultrapassagem durante o safety-car e Stoffel Vandoorne, o belga, abandonou o McLaren nos boxes e foi procurar os melhores chocolates do mundo para afogar suas mágoas.

Apesar da estratégia equivocada no começo, Vettel vinha crescendo na prova e se mostrava muito rápido. O grande talento do alemão foi mostrado na sua ultrapassagem sobre o companheiro Raikkonen. No mesmo ponto em que Verstappen havia passado o finlandês da Ferrari, Vettel mergulhou e não deu chances para Raikkonen se defender. Linda ultrapassagem.

Outro abandono, agora do candidato a genro de Nelson Piquet, Kvyat. Nem papai, nem chocolate belga, com ele o consolo é bem mais carinhoso em caso de a prova terminar mais cedo.

Mais algumas voltas e Vettel chega em Ricciardo. Ex-companheiros de Red Bull, protagonizaram uma batalha linda, com direito a curvas lado a lado e até toque de pneus de ambos, para a alegria dos mecânicos do time vermelho e de todos que já estavam saudosos de ultrapassagens de verdade. Esta foi daquelas que vem com selo de qualidade.

Hamilton e Vettel, uma bonita disputa até aqui

Enquanto Hamilton se consolidava na primeira posição, Bottas tinha muito trabalho para se recuperar. E ambos os carros da Ferrari chegando nos carros da Red Bull.

Carlos Sainz Jr oscilou, mas fez a melhor estratégia da prova.

Carlos Sainz Jr oscilou, mas fez a melhor estratégia da prova.

Era nítida a melhor condição do carro de Vettel sobre Verstappen, chegando consistentemente. Após percorrerem todo o retão bem próximos, Verstappen errou a freada e deixou caminho livre para Vettel assumir a segunda colocação. O erro de Verstappen o fez optar por nova parada já na volta seguinte, retornando atrás de Bottas, mas recuperaria a posição sem muita demora.

A consistência de Fernando Alonso impressionava. Mesmo com um carro muito ruim, um dos mais lentos em velocidade final em um circuito com uma das maiores retas da temporada, o espanhol ficava sempre ali em sétimo, oitavo, se defendendo como podia de todos. Quando foi ultrapassado por Bottas, perguntou para a equipe se o finlandês tinha algum problema no carro, pois não se imaginava estar a frente de um dos carros prateados. Soou como ironia, mas o talento desperdiçado de Alonso é ruim para a Fórmula 1. Não é uma questão de torcida, é uma questão de opinião, ok? Após uma disputa com o conterrâneo Sainz Jr, acabaria abandonando a prova.

Ainda haveria praticamente mais uma rodada de pit-stops na qual Hamilton nem precisou se expor demais, pois fez a parada e voltou em primeiro sem o menor problema, devido a grande vantagem que tinha para Vettel.

No final da prova, Ricciardo se aproximou muito de Verstappen e queria um lugar no pódio. Bottas também tentava uma posição ainda sobre Raikkonen. O que mais chamou a atenção na briga Verstappen x Ricciardo nem foi tanto a briga na pista, mas sim o chororô do piloto #33 em relação a Grosjean, que seguia a sua frente. Por várias vezes, Verstappen chamou no rádio para pedir que o francês saísse da frente, mas o curioso era que Grosjean estava uns 6 carros a frente da disputa, enquanto Ricciardo estava colado na caixa de câmbio de Verstappen. As reclamações não surtiram nenhum efeito, assim como a ultrapassagem que também não vingou.

Hamilton venceu, com controle, com autoridade. Vettel foi o segundo e, talvez, poderia ter conseguido uma batalha mais direta com o inglês se fosse melhor sucedido nas paradas de box. Verstappen completou o pódio, seguido a menos de um segundo por Ricciardo. Raikkonen foi o quinto e também chegou a menos de um segundo de Bottas.

Verstppen segurou Ricciardo no final da prova e foi para o pódio, apesar do chororô.

Verstppen segurou Ricciardo no final da prova e foi para o pódio, apesar do chororô.

Carlos Sainz Jr fez uma excelente corrida, segurou o sétimo lugar com brio, mostrando que o carro é bom, tem potencial. Em oitavo, um surpreendente Magnusen e sua Hass, a frente dos dois carros da Force India, Pérez e Ocon.

Ao desligar dos motores…

– Temos um campeonato, enfim. Hamilton e Vettel empatados com 40 pontos na liderança do mundial. Isso é bom;
– Ocon, bela corrida. Assim como Verstappen, veio lá de trás de Force India e chegou em décimo, logo atrás do companheiro Pérez. Mas ainda tem muito o que provar;

– Massa culpou os pneus frios pelo péssimo resultado deste final de semana. Chegar apenas a frente de Marcus Ericsson é muito pouco para um carro que é a quarta força na pista (ou era);

– Vamos ter ultrapassagens sim, mas vai depender do circuito, e talvez de um pouco de água;

– A torcida chinesa pode ser simpática, mas é evidente que funciona como auditório do Faustão, ou seja, cada grupinho de pessoas torce para um determinado piloto mesmo sem saber escrever o nome dele. É muito artificial. Não gosto, por mais simpáticos que eles se comportem;

– Por enquanto, Hamilton e Vettel se cumprimentam efusivamente após cada corrida, como bons amigos. Que seja assim.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

1 Response

  1. Glauco de F. Pereira says:

    Se Massa “desaposentou” para dar desculpas como essas para a sua corrida insonsa complica né? Afinal, os pneus estavam frios para todo mundo, ou não? Será que o atual chassi da Willians já demonstra um problema como esse na segunda prova do ano, das duas uma: ou realmente o problema é o relatado ou começou mais cedo a temporada de desculpas…

    Se até mesmo a sua volta e possível destaque nessa temporada tinha como justificativa ter um carro que se assemelhava a suas características de pilotagem, é difícil entender tais explicações…

    Já Alonso, cada vez melhor a sua pilotagem. É um desperdício estar afastado da disputa pelo título ou por melhores posições por uma McLata que, a continuar assim, se tivesse rebaixamento, seria candidata ao descenso já na temporada anterior e nesse então, pelo início, nem precisaria dizer.

    Outro que não faz jus a “cadeira” que ocupa é Raikkonen. Será que um cockpit que dê choques a cada reclamação, xingamento ou grosseria, como já se caracteriza seus contatos via rádio se caracterizam, seria uma solução.Como se explica Vettel cabeça a cabeça com Hamilton e Raikkonen não brigando sempre por um lugar no podium, mesmo que seja o terceiro?

    Verstappen, pra variar, dando show quando as condições de pista pioram, a ponto de até mesmo Hamilton reconhecer e dizer que precisa acompanhar como é que Verstappen consegue se sair tão bem… E, para ele, Verstappen, ainda afirma que “parecia um videogame” a forma com que ultrapassou tantos carros na largada.

    Faz parecer fácil, coisa que, sendo no videogame ou na vida real, não é mesmo, de forma alguma!

    Agora é esperar o próximo show, ops, corrida, para se confirmar quem serão os personagens principais ou se teremos candidatos, hoje atores secundários, a se tornarem protagonistas.

    Aposto minhas fichas em Verstappen.

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