Vettel, o italiano


O alemão voltou a vencer na corrida que marcou a primeira pole position de Valtteri Bottas. Quadragésima quarta vitória na carreira, apenas a quinta no time de Maranello, mas Vettel já parece ter aprendido a cantar o hino italiano.

Bottas deixou Hamilton no chinelo

Parecia que a disputa pelo lugar de honra no grid de largada do desértico GP do Bahrein não seria tão intensa. Tudo dava a entender que a Ferrari estava com um carro mais rápido que os carros da Mercedes, e que Vettel, dono dos melhores tempos da sexta-feira, ficaria com a vaga desta vez. Se bem que, no terceiro treino livre, Max Verstappen colocou o carro da Red Bull a frente de todos.

Mas a Ferrari não era só alegria não. Tanto Raikkonen quanto Vettel apresentaram problemas no carro nos treinos livres. Mas o treino oficial foi dia de pole inédita. Foi o dia de colocar Valtteri Bottas na galeria daqueles que já largaram sem ver ninguém a sua frente.

Eu vou insistir no fato de temos cinco carros de equipes diferentes eliminados no Q1, mais uma vez. É que todo mundo acha que o fundo do gris é sempre lugar de Sauber, Haas e Renault, com visitas sempre frequentes da McLaren. Não é bem assim.

Vettel largando melhor que Hamilton.

Vettel largando melhor que Hamilton.

Tudo bem que Sérgio Pérez não fez um bom treino e ocupou apenas a décima oitava posição, a frente apenas de Ericsson e Magnussen e atrás de Vandoorne e Sainz Jr. Mas o fato é que Toro Rosso, McLaren, Force India, Haas e Sauber, praticamente, sempre deixam um de seus pilotos lá atrás.

No outro Sauber, a volta de Pascal Wehrlein, recuperado de uma fratura na vértebra na etapa deste ano da RoC (Race of Champions). Foi lá e colocou o carro azul-dourado em décimo terceiro. Isso mesmo, o alemão voltou mandando recado. E por pouco, quase que não se repetem as mesmas equipes no Q2. É que por lá ficaram, além de Wehrlein, Esteban Ocon e Fernando Alonso, Daniil Kvyat e Lance Stroll. Alonso teve que trocar a unidade de potência ao final de sua participação no treino livre, e acabou correndo com um motor “descalibrado”, que renderia boas conversas pelo rádio.

E Lance Stroll foi o piloto que não levou a Williams para a Q3, quebrando a “corrente”. Em seu lugar, no Q3, estava Romain Grosjean, que já tinha feito uma boa prova no Bahrein ano passado. Madou bem de novo e largou em nono lugar, à frente de Jolyon Palmer. Palmer, com este feito, conseguiu levar o segundo carro da Renault para o Q1. Nico Hülkenberg, com o outro carro amarelo, foi bem mais a frente, lá na sétima posição, a frente, inclusive, de Felipe Massa, e só atrás das três maiores forças do grid.

Massa, inclusive, se meteu em uma confusão com Max Verstappen.

O brasileiro foi acusado de atrapalhar a volta rápida do piloto da Red Bull, que acabou apenas na sexta posição. Ao comentar sua frustração, o holandês disse que “não tinha muito o que dizer, afinal, Felipe Massa é brasileiro”, causando revolta de muitos brasileiros nas redes sociais.

E dava para ir mais além, sim. Daniel Ricciardo, o outro piloto da Red Bull, conseguiu a segunda fila, a frente de Kimi Raikkonen.

Grande corrida de Sérgio Pérez.

Grande corrida de Sérgio Pérez.

Sem repetir a mesma performance dos treinos livres, Sebastian Vettel ficou na segunda fila, com o terceiro lugar. Sim, as duas primeiras posições seriam da Mercedes, e tudo indicava que Hamilton aproximaria sua marca pessoal ainda mais do recorde de Michael Schumacher, mas não foi bem o que o inglês imaginava. Por um pequeno erro no final de sua última volta rápida, Hamilton acabou sendo apenas vinte e três milésimos mais lento que o finlandês ex-Williams, confirmando assim, a primeira pole de Bottas em sua terceira corrida pela Mercedes.

Pit-stop gêmeo

O lado sujo da pista acabou desfavorecendo a largada de Hamilton, que perdeu a segunda posição para Vettel. E Verstappen tratou de, rapidamente, pular para o quarto lugar e, assim, diminuir a sua ira em relação a classificação. Massa, seu algoz nos treinos, também fez uma boa largada e pulou para sexto. A primeira baixa da corrida ficou por conta de Stoffel Vandoorne. Na verdade, ele nem chegou a alinhar o carro no grid. Alguém advinha o porquê? Já se foram três unidades de potência do belga este ano, e só podem usar quatro, sem punição.

Os três primeiros, Bottas, Vettel e Hamilton, puxavam a fila com diferença apenas visual. Verstappen e Ricciardo começavam a chegar no trio da ponta, e Massa conseguiu segurar Raikkonen, que já tinha dado uma pequena escapada, mas por poucas voltas. E Stroll inaugura os serviços de box, pouco antes do abandono de Megnussen.

Sainz acertando o carro de Stroll. "Strollada" do espanhol.

Sainz acertando o carro de Stroll. “Strollada” do espanhol.

Preso atrás de Bottas, Vettel resolve ir para os boxes para sua primeira parada, cai para a décima segunda posição. O alemão saiu daquela fila de cinco carros que liderava a prova com diferença relativamente pequena entre eles. E o segundo a sair deste “trenzinho” seria Verstappen, mas o retorno…

O pit-stop foi normal, mas Verstappen queria tirar a diferença para os líderes o mais rapidamente possível. Ainda na volta de retorno a pista, o Red Bull número 33 sentiu uma atração física tão forte pela barreira de pneus que acabou resultando em uma atração física que deixou marcas no bico dianteiro do carro. Verstappen ficou bravo, deve ter se sentido no papel de “vela”. A torcida brasileira achou bem legal.

A parada de Raikkonen foi logo em seguida, e Hamilton já estava colado com Bottas. Neste momento, Stroll rasga pela reta enquanto Sainz sai do pit-lane. E não é que temos um outro caso de atração impulsiva? A roda dianteira direita de Sainz foi dar bem no meio da Williams do canadense, resultando não apenas no abandono dos dois, mas também em um safety-car. Na minha visão, a culpa foi total de Sainz. É fato que Stroll não desviou um milímetro de seu traçado para evitar a batida, mas, Sainz não podia jogar tudo em uma freada em que ele era mais lento. Vai sofrer, inclusive, punição para a largada do GP da Rússia.

A Mercedes, com seus dois pilotos prontos para fazerem o pit-stop, acabou optando por uma manobra já conhecida, que é a do pit-stop gêmeo, onde os dois pilotos fazem praticamente a parada ao mesmo tempo. Só que, assim como na vida, há diferença de tempo entre um nascimento e outro, ainda que os irmãos sejam gêmeos. Não dá para fazer ao mesmo tempo. Só que Hamilton acabou optando por uma malandragem.

Ao puxarem para a direita para entrarem no pit-lane, os carros prateados estavam bem próximos, como eu citei. Para que Bottas tivesse tempo de fazer sua parada e imediatamente Hamilton também saísse feliz com pouco tempo perdido, o inglês tentou fazer uma “cera” típica de Libertadores. Só que Ricciardo estava colado em Hamilton e acabou perdendo tempo com a vagarosidade do tricampeão. Como na Fórmula 1 não tem cartão amarelo mas tem acréscimo, Hamilton ganhou cinco segundos de penalty.

Verstappen falou muito e pilotou pouco. Saiu mais cedo.

Verstappen falou muito e pilotou pouco. Saiu mais cedo.

Chororô é passado

Na relargada, as posições eram Vettel, Bottas, Hamilton, Massa, Raikkonen, Ricciardo, Pérez, Hülkenberg, Grosjean e Ocon.

Repararam na posição de Pérez? Largou lá com a raspa do grid e já estava em sétimo.

Depois da primeira parada, a Ferrari de Vettel abria distância dos carros da Mercedes, despejando toda potência do motor Ferrari. E, falando em potência, Fernando Alonso tornou público, mais uma vez, sua insatisfação com o propulsor japonês. Disse que era inadmissível entrar na reta trezentos metros a frente do oponente e ser ultrapassado ainda antes da freada. O rádio ferve no ouvido dos japoneses.

Alegando que Bottas estava com algum problema no carro, a Mercedes pede educadamente para o finlandês deixar Hamilton seguir na caça de Vettel. A diferença era de pouco mais de seis segundos, mas ainda haveria mais uma parada para os primeiros.

Quando todos fizeram a segunda parada, Hamilton pagou os cinco segundos de punição (acho que foi daí que inventaram aquele manequim challenge), e voltou em terceiro lugar, que logo seria novamente o segundo.

Tirando diferença de mais de um segundo por volta, ficava claro que aqueles cinco segundos de penalização foram cruciais para impedirem uma batalha final entre os pilotos da Ferrari e da Mercedes. No entanto, é de se reconhecer que não seria possível essa diferença ser menor. É que, se Hamilton esperasse parado o serviço no carro de Bottas, essa diferença talvez fosse igual ou maior ainda.

Durante a caça de Hamilton a Vettel, alguns retardatários “ajudaram” o piloto da Ferrari a escapar na hora certa e não dar chances para Hamilton. Faltando uma volta e meia, a diferença de pista era de seis segundos e meio (um e meio se não fosse a punição).

Bottas facilitou tanto a ultrapassagem de Hamilton que o inglês quase tomou um susto.

Bottas facilitou tanto a ultrapassagem de Hamilton que o inglês quase tomou um susto.

Vettel venceu mais uma, arranca na liderança do campeonato e comemorou com o time, lá do alto do pódio, com a alegria de um bambino. Hamilton e Bottas completaram o pódio, ambos com cara de mamão. Raikkonen, bem longe, chegou em quarto, seguido de Ricciardo e Massa. Pérez, Grosjean, Hülkenberg e Ocon fecharam os dez primeiros colocados. Alonso abandonou antes do fim.

Ao desligar dos motores…

– Fernando Alonso vai correr as 500 milhas de Indianápolis, com um carro da equipe Andretti, que será um McLaren, impulsionado pelo motor Honda. Eu acho que ele está certo. Vai perder o GP de Mônaco e deve ser substituído por Button. Não acho que seja um ultimato com a categoria, apenas uma chance de andar na frente, ainda que de motor Honda, que na Indy empurra bem mais. Há rumores (já) que ele vai para a Renault ou sai da F1;

– Bottas está sendo comparado a Rubens Barrichello por ter cedido a posição para Hamilton. O que eu acho disso? Ainda acho que Barrichello era melhor que ele;

– Pérez e Massa fizeram corridas muito boas, dentro das limitações de seus carros. Massa chegou a dizer que era como uma vitória e dedicou o sexto lugar ao patrão Sir Frank Williams, que completou 75 anos ontem. Pascal Wehrlein também merece destaque. Em sua estréia este ano, foi o décimo primeiro;

– Stroll não teve culpa no acidente com Sainz, em minha opinião, mas o prejuízo continua dele (ou do pai dele). Até agora, não deu nenhuma demonstração de grande pilotagem;

– Raikkonen começa a causar desconfiança na Ferrari. Os resultados dele, comparados ao de Vettel, estão muito inferiores. E o carro não é desculpa. Pode ser que o finlandês não se adapte ao carro como Vettel, mas isso só não justifica esta diferença de desempenho entre ambos;

– Verstappen se desculpou com o povo brasileiro sobre suas palavras a respeito de Massa. Generalizar não é legal mesmo. Mas acho que Massa também não precisava ameaçar o garoto dizendo para ele se cuidar pois ainda iria correr no Brasil. Parece briga de colégio.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, fez MBA em Administração e trabalha há quase duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 há mais de trinta e cinco anos e escreve para o No Trânsito desde 2009.

2 Responses

  1. Glauco de F. Pereira says:

    Belo resumo como sempre, Lauro.

    Complementando (como se fosse possível…)

    A Mercedes diz que, no caso de Bottas,”um problema” no compressor responsável pela calibragem dos pneus (?!?!) do piloto fora responsável por largar os mesmos com pressão superior ou inferior não me lembro ao certo, impactando diretamente no veículo e seu desempenho durante o primeiro stint, fato este que influenciou no resultado final.

    Pergunto: precisa desta “explicação” toda para deixar claro perante o público externo que Bottas é e sempre, talvez, será o segundo piloto da equipe? Na 3ª prova do Campeonato não é muito cedo? Será que Bottas mostrou os “dentes” muito cedo e a Mercedes resolveu mostrar a ele o seu verdadeiro lugar? E se futuramente a equipe “precisar” de Bottas numa futura disputa para neutralizar investidas ferraristas, pode-se esperar boa vontade dele?

    E Raikkonen? Será que um carro feito a imagem e semelhança da pilotagem de Vettel seria responsável por um desempenho em condições de corrida tão inferior a de Seb? Olha que a continuar nessa “tiriça” toda, arrisca Raikkonen a não comer peru de natal em Maranello, sendo chamado Riccardo e seu esquadrão de 64 dentes a dividir com Seb, o que seria uma dupla dos sonhos, em minha opinião.

    O entrevero Massa vs Verstappen. Acho que Massa se inflamou por pouco. O moleque é bocudo, pilota muito, mas a boca é como a dos adolescentes em quase todo lugar do mundo: funciona sozinha e sem filtros que a idade costuma trazer! Acrescido a isto, sendo filho de quem é, “Baby” Verstappen, eleve isto a decima potência e tem-se o resultado.

    No mais, após a terceira etapa, mesmo a princípio parecendo cedo pra dizer, Hamilton terá de suar o macacão para conquistar seu quarto título. A Ferrari demonstra ter um carro equilibrado, que consome menos pneus, a equipe de estratégia tem dado um “nó tático” na Mercedes. Que seja um ano em que as disputas sejam na pista e que o melhor vença, sem coisa do tipo “Fernando is faster than you”, como, somente mudando os personagens, Bottas ouviu este domingo.

    Ansiosamente a espera de Sochi para o novo capítulo da disputa!

    • Glauco,

      Seus comentários são sempre pertinentes e enriquecem muito a conversa aqui. Já começo a pensar em fazermos uma dupla.
      Grande abraço e muito obrigado pela participação sempre.

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