Hoje tem marmelada? Tem sim senhor!


Esperei alguns dias e até tentei esfriar a cabeça, mas não consegui. Aí decidi escrever um pouco, por mais batido que esteja esse assunto e saber o que você pensa disso.

Ouvi e li opiniões de inúmeros baluartes do jornalismo ligados intimamente à categoria, além de dirigentes, chefes de equipe, ex-pilotos, cada um com uma idéia diferente, um argumento interessante, um ponto de vista que coincidia com o meu ou que eu nem imaginava. Sinceramente, pela primeira vez na vida, me decepcionei pra valer com a Fórmula 1. Perdi o encanto com os carros coloridos e velozes que acompanhei por centenas de Grandes Prêmios.

Você pode se perguntar, como eu me questionei: já não vimos isso antes? Já não estamos, até de certa forma, acostumados com este procedimento, com essa verdadeira afronta que se faz ao esporte de maneira geral, e ao automobilismo mais especificamente? Sim, até é verdade, mas nunca tão prematuramente, nem tão controversamente discutidas como foram às ordens das equipes Red Bull e Mercedes desde o último domingo na Malásia.

Eu fico imaginando se lá no longínquo ano de 1988, a McLaren resolvesse optar por fazer de Alain Prost tricampeão naquele ano ao invés de deixar Ayrton Senna postular o título. Um ano mágico da fantástica máquina MP4-4 equipada com motores Honda turbo, e que venceu nada menos que quinze das dezesseis etapas daquele ano. Não falo isso, repito, e sempre faço questão de frisar, apenas porque Senna era brasileiro e ídolo naquela ocasião. E olha que Senna, recém-chegado na McLaren naquele ano, além de disputar o título com um companheiro de equipe com 04 anos de “firma”, dos quais conseguiu dois títulos e um vice-campeonato, aprontou das suas. Enfiou o carro no guard-rail de Mônaco, sozinho, com quase um minuto de vantagem para o próprio Prost. Depois, em Monza, liderava e se envolveu em um acidente tolo com o francês Jean-Louis Schlesser, que era retardatário e substituía Nigel Mansell na Williams somente naquele GP. A culpa foi do francês, mas teria sido uma tragédia para a Fórmula 1 ver a McLaren optar por um de seus pilotos em uma temporada que, honestamente, foi bem monótona, mas salva pelo surgimento de uma das maiores rivalidades da história.

Prost e Senna. Rivalidade levada às últimas consequências.

Mas Lauro, as equipes investem milhões de notas verdes e de outras cores para cada temporada, elas então não teriam o direito de intervir no resultado de seus pilotos? Sim, claro que tem, mas há ressalvas, e muitas.

A decisão sobre a troca ou manutenção de posições dos seus pilotos em uma corrida é legítima, e essa é uma das minhas opiniões. Defendo isso e ponto. Mas a coisa descambou muito nos últimos dez ou onze anos. Quem não se lembra do que a Ferrari fez em 2002, na Áustria? Já falei disso aqui algumas vezes, mas se faz necessário novamente. Era uma época em que Schumacher era dono da equipe e Barrichello um ótimo funcionário. Mas o final de semana austríaco daquele ano foi todo do brasileiro, e sua decisão de escancarar o que acontecia internamente na Ferrari foi, apesar do vexame, importante. Nem era tão necessária a vitória de Schumacher naquela altura do campeonato, em minha opinião. A vitória, por justiça, era para ser de Barrichello.

Naquela ocasião, o mundo caiu em críticas sobre a Ferrari e sobre o lamentável pastelão a que seus dois pilotos se prestaram a fazer. E com toda razão. Aquele foi um marco negativo que manchou a Fórmula 1 para sempre.

A famosa bandeirada do GP da Áustria de 2002.

E ninguém está livre de “senões” em qualquer carreira que seja principalmente se você for um cara diferenciado e vencedor. Nelson Piquet, Alain Prost, Ayrton Senna, Fernando Alonso, Michael Schumacher, agora Sebastian Vettel. Todos estes tiveram seus momentos “politicamente incorretos” ou “mau mocismo” durante a carreira.

Piquet, talvez o maior malandro da história da Fórmula 1, certa vez em 1987, desobedeceu a equipe Williams e entrou nos boxes para troca de pneus quando a equipe estava toda pronta esperando por Nigel Mansell, ambos disputando o título da temporada naquele ano. A ira do então chefe de equipe Patrick Head foi tanta que dava pra ver, ao vivo na transmissão pela TV, ele gritando e gesticulando com o mesmo ímpeto de quem chuta a quina da mesa descalço. E Piquet colecionou inúmero outros episódios de indisciplina.

Prost e Senna tem em seus currículos uma batida proposital para cada lado, ambas decidindo os campeonatos de 1989 e 1990 respectivamente, em outros dois episódio lamentáveis da Fórmula 1, mas que hoje fazem parte das conversas dos apaixonados e defendidas como se fossem verdadeiras teses de mestrado de direito.

Fernando Alonso, que se não fosse catalão, poderia muito bem ter nascido em Minas Gerais, é “the great pretender”, como diz a música antiga regravada por Freddie Mercury nos anos 80. Não porque Alonso não tenha talento, muito pelo contrário, é um excelente piloto, combativo, duro nas disputas, mas que sempre se faz de desentendido (e até vítima) quando foram colocadas sobre ele as responsabilidades sobre aquele caso da espionagem entre McLaren e Ferrari em 2007, ou até mesmo o escândalo do GP de Cingapura de 2008, vencido por ele com a ajuda de Nelsinho Piquet e arquitetura de Flavio Briatore, el capo da Renault naquela ocasião.

Mansell e Piquet, uma rivalidade que custou o título de 1986, que foi para Alain Prost da McLaren.

Michael Schumacher, nossa senhora, o que tem de títulos tem de polêmicas. Batidas deliberadas nos adversários, estacionar o carro no meio da pista no final do treino, etc, etc, etc. Nada que o tire nenhum dos recordes que lhe fizeram o maior da história, mas são os “senões” que acompanham qualquer grande campeão.

E agora foi Sebastian Vettel, o moleque amado por todos e suas traquinagens sempre politicamente corretas até então.

Já houve, no GP da Turquia de 2010, o primeiro misunderstanding entre ele e Mark Webber, quando ambos se enroscaram disputando a liderança naquela que teria sido mais uma dobradinha na história da Red Bull. A reação de Vettel ao descer do carro na área de escape e gesticular uma suposta insanidade de seu companheiro de equipe era, até então, incompreendida, já que não se sabia que Webber foi avisado de que Vettel não o atacaria naquela ocasião. Ambos, depois, se deram as mãos, publicaram fotos com a frase shit happens e tudo pareceu resolvido. Mas aconteceu de novo agora.

Breaking all the rules, de Peter Framptom – música que toca no cockpit de Vettel agora.

Desta vez sem a batida e o abandono de ambos como aconteceu na Turquia há quase três anos, Vettel ignorou a ordem de manter posição atrás de Webber, e o resultado todos já sabem. Mas afinal o que há de errado ou de certo nisso tudo? Bem, estamos falando de grandes campeões e de suas polêmicas, portanto, não são anjos, mas sim, humanos que por algumas (ou muitas) vezes, são tentados a transgredir as regras ou a boa conduta em nome de mais uma vitória. Escolhas que podem trazer algum barulho, claro.

O que me deixa inconformado, no entanto, é a maneira como isso tudo está acontecendo na Fórmula 1, especialmente este ano.

Na abertura da temporada a Ferrari já tratou de colocar Alonso na frente de Massa ao manter o brasileiro na pista por algumas voltas a mais antes da segunda parada para troca de pneus. Pois bem, precisava? Em minha opinião não, afinal, era a abertura do Mundial apenas. Só que é cristalina a vontade da Ferrari em ver Alonso campeão, e não Felipe Massa, por uma série de razões que incluem muitos interesses comerciais.

“Ah, então Massa nunca vai poder vencer quando Alonso estiver na pista?” Vias de regra, é isso mesmo, mas e se Alonso tiver alguns infortúnios como aconteceu na primeira volta do GP malaio? Será que a Ferrari sacrificaria um possível título do brasileiro que, diga-se, está “faster than Alonso”- ecoam vozes radiofônicas vindas do GP da Alemanha de 2011 – nas últimas seis ou sete etapas, caso Alonso tivesse menos chances? Como se vê, a Ferrari continua a mesma de tantos anos atrás.

O agravante está agora na Mercedes, que através de Ross Brawn e seu passado parcial, escolheu torcer por Lewis Hamilton ao invés de deixar que ele se resolva com Nico Rosberg. Um verdadeiro absurdo com direito a ameaça de Nico ao final da prova dizendo que vai cobrar isso mais a frente do próprio Brawn. Nico, aliás, obedeceu desta vez, mas parece que não vai ter repeteco.

Então, o que fazer se logo nas duas primeiras etapas do mundial de 2013, que tem tudo para ser extremamente interessante, já presenciamos a marmelada institucionalizada? Como não terminar de azedar a maionese com o calor da discussão já estabelecida?

Ouvi dos mesmos baluartes citados no início da coluna, que deveríamos ter carros da mesma equipe com patrocínios diferentes, como acontece em algumas categorias americanas, por exemplo. Isso pode ajudar sim, mas acho dificílimo de acontecer. Então corta-sea comunicação entre pilotos e chefes de equipe através do rádio. Bom, isso evitaria mensagens cifradas do tipo “Papaléguas passou por Ligeirinho e Usain Bolt está se aproximando”, mas as antigas placas colocadas na mureta direcionariam as ações. Tenho dúvidas sobre a eficácia total.

A única certeza de que tenho hoje é uma profunda decepção com alguns caras do meio dizendo que Vettel teria de ser punido, que o que ele fez foi absurdo, intolerável, inexplicável, e tudo mais de detestável que se possa imaginar. Banana para esses caras! Tem cara especulando qual deve ser o melhor companheiro para Sebastian Vettel em 2014! O que é isso!? Eu quero ver duplas como Piquet e Mansell, Senna e Prost, Alonso e Hamilton, não dupla sertaneja com primeira e segunda vozes definidas.

Ross Brawn optou por Hamilton no pódio da Malásia, mas Rosberg disse que isso não vai se repetir. Quem vai ter mais força nesta queda de braço?

Vettel é um vencedor, demonstrou isso sempre e o que aconteceu entre ele e Webber é um problema a ser resolvido internamente dentro da Red Bull, e ponto. Se vai ter troco do australiano ou se ele se sente prejudicado, se vão mandar Vettel embora, problema deles ora. E na Mercedes a mesma coisa, assim como em qualquer equipe. Esse é o tempero, mas tem que ser bem dosado. O que precisa parar de acontecer é achar que a torcida vai para a arquibancada, na segunda prova do ano, ver os quatro primeiros colocados da prova próximos e com chances de brigarem por resultados melhores, apenas desfilando como se estivessem em uma parada militar e não uma corrida de automóveis.Tio Bernie deve estar pensando bastante sobre o assunto, isso deve.

Vettel errou com a equipe e com o companheiro, ignorou o fair play, mas trouxe ao GP da Malásia o ingrediente da disputa, limpa por sinal. Nico Rosberg fez exatamente o contrário, acatou as ordens da equipe, mas deixou claro seu incômodo com isso.

Entendo que as equipes podemoptar pela posição de seus pilotos, mas só em caso de disputa clara de título por um deles. Acho também que o piloto que está sendo preterido pode discordar e ceder sua posição ou ultrapassar o companheiro se quiser, e que se resolva com a equipe.

Você acha o mesmo? Você acha nem que sim, nem que não, muito contrário? Deixe sua opinião para a gente e vamos ver como a maioria quer ver o circo da Fórmula 1.

Um grande abraço.

Lauro Vizentim

Lauro Vizentim é Engenheiro Mecânico, trabalha há mais de duas décadas na indústria de automóveis. Gosta de criação, design e de... carros. Quando estes três gostos se juntam em uma corrida, tudo se completa. Acompanha a Fórmula 1 desde criança e colabora com o No Trânsito desde 2009.

21 Responses

  1. “Eu quero ver duplas como Piquet e Mansell, Senna e Prost, Alonso e Hamilton, não dupla sertaneja com primeira e segunda vozes definidas”

    Perfeito!
    Concordo em gênero, número e grau.

    Posso mandar a real? Não acabam com essa palhaçada de jogo de equipe porque não querem.
    Como resolver? Também concordo que “carros da mesma equipe com patrocínios diferentes”.
    Solução? A meu ver, um carro por equipe resolveria. Ai viriam os baluartes: “Cairia bruscamente o numero de carros”. Balela! Garanto que muita montadora (tipo: BMW, Honda, Jaguar, etc), que já deixou a F1 pela alta grana em ter que manter 2 carros, voltaria. E outra, as pequenas Marussia, Caterham juntamente com as não tão pequenas assim Toro Rosso (essa aqui nunca será grande), Force India e Sauber teriam mais chances e, quem sabe, carros bem mais competitivos. Por fim, com este humilde ponto de vista, a Williams poderia até ressurgir das cinzas.

  2. Corrigindo:

    Como resolver? Também concordo que “carros da mesma equipe com patrocínios diferentes” não resolveria.

    • Lauro says:

      Olá Carlos,

      No passado, me lembro em anos 80, algumas equipes por falta de dinheiro tinham apenas um carro, mas foi muito raro. Havia um movimento para que algumas equipes grandes tivessem até três carros no grid, e isso sim, poderia matar de vez as pequenas.
      Acho que dois carros por equipe, com pilotos livres para vencer ou buscar o melhor resultado já é suficiente. A gente vê brigas entre companheiros de equipe da oitava posição pra baixo, onde na verdade não vale quase nada em termos de pontos.
      O primeiro rival é o companheiro de equipe, sempre.

      Abraço!

  3. Glauco de Faria Pereira says:

    Desde que a F1 tornou-se um grande negócio, comandado com “mãos de ferro” por “Tio Bernie”, mais do que nunca, os interesses comerciais/financeiros vem a frente das disputas esportivas, ou seja, o que for mais “interessante” financeiramente para a disputa, tudo se moverá para este fim.

    Sendo assim, comercialmente falando, quem seria o mais vendável? Vettel ou Webber? Hamilton ou Rosberg? A resposta para esta pergunta, penso que trará quem será o preterido em uma possível disputa?

    Bons tempos de Fittipaldi, Piquet…onde o que valia era o braço e a “malandragem”, no bom sentido…

    • Lauro says:

      Oi Glauco,

      Claro que os acionistas, em qualquer negócio, querem retorno. Pensando assim, alguém ganha e alguém perde com isso.
      Se eu colocar meu dinheiro (patrocínio, não aposta) em uma equipe, vou querer que ela me dê o maior retorno possível, isso é legítimo. Então, pra mim tanto faz se é Leandro & Leonardo ou Leonardo & Leandro.
      Só que, como na música, se não tiver público não adianta, e fica incompreensível um parar para o outro passar, ainda mais nesta altura do campeonato.
      Para mim, pensando um pouco mais, acho que uma baixa geral nos custos pode ajudar com que isso melhore, pois se a equipe “A” resolver sair, outras aparecerão, mas isto é utopia nos dias de hoje e talvez nunca mais aconteça.
      Só pra citar alguns casos, James Hunt foi campeão mundial porque Niki Lauda não quis correr na última etapa. Em 1999, Irvine quase foi campeão com a ausência de Schumacher em algumas provas devido ao acidente em Silverstone. Mais recentemente, Hamilton e Alonso perderam o título para Raikkonen, mas Hamilton era o protegido contra o bicampeão Alonso na época.
      Interesses sempre existirão, mas se eles forem maiores que a prórpia disputa, não vende, simplesmente isso.

      Um abraço.

  4. Bruno Cardoso says:

    Lauro

    Tem que deixar a briga acontecer. Afinal, é uma corrida de carros, como você falou. Que os pilotos desobedeçam suas equipes!!

    Abraço
    Bruno

  5. lsussumu says:

    Lauro bom texto!!!!

    Bom a disputa dentro de uma equipe sempre irá ter!!!! E favorecer pessoa X ou pessoa Y também irá ocorrer. Mas concordo com você! O campeonato começou agora, não existem postulantes a títulos, iria ser legal se tivesse uma regra em que nos primeiros X Gp´s não pode ocorrer favorecimentos de pilotos. Após isso cada equipe poderia adotar o plano que quiser.
    A formula 1 é uma empresa , quem pagar mais leva!!!! “Traga o $$$ para casa”… Isso que está estragando o esporte. As disputas das equipes que não estão andando na frente são mais emocionantes que os da frente. Pq dependendo de quem está na frente você já sabe o resultado.
    Lembro do que o Kobayashi falou
    “Trazer um patrocinador talvez seja muito importante para o futuro. Estamos nos esquecendo de como um piloto deve ser, isto é, pensar no carro. É o trabalho. Mas agora parece que apenas o patrocínio importa. Não é assim que um piloto tem que ser.”
    “Um patrocinador pode me ajudar a continuar aqui no próximo ano, mas eu não tinha isso quando cheguei aqui. É uma sensação estranha procurar patrocinadores para continuar em outra equipe ou aqui na Sauber. Neste momento, é claro que o dinheiro é muito importante, mas eu quero ser como um piloto de ponta: sem um patrocinador e com uma boa equipe. Era isso que eu sonhava quando era mais jovem.”

    Infelizmente a formula 1 é assim, Kobayashi é um grande piloto, mas infelizmente ficou fora por não trazer patrocinadores. Outra vez, quem tem mais $$$ leva. Enquanto o foco for $$$ não irão existir pilotos novos que se destacam em outras categorias entrando na formula 1. E esses pilotos poderiam sim trazer essa saudosa disputa

  6. Rene Arnoux says:

    Quem construir uma imagem melhor desde o início de carreira sempre vai ter prioridade. Vettel, Hamilton, Alonso, Button, Kimi são campeões e os patrocinadores vão depositar suas fichas, ou melhor, $$$$, nestes caras. Infelizmente quando o Massa teve a chance de entrar neste grupo a Ferrari pisou no tomate….agora já era. Assim, resta torcer para que mais equipes tenham chances de brigar pelo campeonato, só assim vai existir disputa…….

  7. Rogerio Santana says:

    Excelente texto! Acompanho F1 desde a infância, mas minha memória não é tão boa assim rs

    Acho esse tema bastante delicado porque temos duas disputas paralelas (mundial de equipes e mundial de pilotos). Nossa tendência, como amantes do esporte, é observar sempre o mundial de pilotos, mas a decisão (que eu discordo) foi tomada, na minha opinião, mais com base no interesse no mundial de equipes.

    Talvez se a fórmula para cálculo de pontos no mundial de equipes fosse diferente (não sei como, mas diferente), essas decisões perdessem o sentido e então os pilotos seriam mais livres para disputar corrida a corrida e no final ver quem é melhor.

    Eu me lembro de Senna e Mansel (não sou muito do tempo do Piquet e outros), mas duvido que um deles abriria mão de uma corrida mesmo que fosse por um título do companheiro. Acho que se algum dirigente se atrevesse a dar uma ordem dessas, ouviria algo semelhante ao que o Raikkonen respondeu aos seus (algo genial do tipo: Fiquem quietos que eu sei o que estou fazendo!).

    Os prêmios para a equipe vencedora são gigantes e movimentam muitos interesses. Se essa fórmula mudar, talvez esteja aí uma possível solução.

    Abraços!

  8. Victor Ferraz says:

    O problema na verdade é que, dentro de uma equipe, existem 3 sujeitos: temos um piloto, temos outro piloto e temos a equipe.
    Cada um deles vai olhar para o próprio umbigo e pensar “quero ganhar”. O piloto quer ganhar, o outro piloto quer ganhar e a equipe quer ganhar. Só que, no caso da equipe, “quero ganhar” significa “quero que um dos meus pilotos ganhe”. Analisando, é matematicamente mais favorável se um piloto ganhar mais do que o outro, pois assim ele acumula mais pontos no final do campeonato. Portanto, estrategicamente, a equipe sempre acaba optando por escolher um de seus pilotos e favorecê-lo (vide o que aconteceu com a McLaren em 2007). Isso é o que a Ferrari faz, mas não tem coragem de admitir que faz isso o ano inteiro, não só no final.
    Solução: um carro por equipe.
    🙂

  9. Vitor Marcos Gregório says:

    Caro Lauro, concordo com cada vírgula por você escrita! Cada vírgula! Exceto pela parte do desencanto com a F1. Aí não! Pelo contrário, meu entusiasmo pela categoria foi revigorado com este último GP. Eu, torcedor convicto de Lewis Hamilton e da Mclaren, devo dizer que passei a admirar muito mais o excelente e já mais do que respeitado por mim Sebastian Vettel! Arrisco até dizer que hoje, talvez, eu torça mais por ele do que por Hamilton. E tudo por conta de sua “traquinagem”. De sua molecagem “irresponsável” que me fez ver que ainda existem reais campeões na F1. Pilotos que efetivamente seguem as palavras do inigualável Ayrton Senna, que em memorável entrevista concedida a Jackie Stewart respondeu que pilotos competem para vencer. E que se você não faz isso, não é mais um piloto. Simples assim! Que não se preocupam com marketing, com o que dirão deles nos mais variados meios, como o também fantástico Nelson Piquet. Enfim, pilotos que sabem o que querem, e o que devem fazer para atingir seus objetivos.

    Eu acompanho o campeonato de F1 através das ótimas coberturas das inglesas Sky Sports (graças ao meu querido serviço de VPN) e da revista Autosport. E devo dizer que, pela primeira vez, fiquei decepcionado com estes veículos, e não com a F1 em si. Foram deles os ataques mais encarniçados a Vettel. Ainda que ninguém saiba exatamente o que de fato ocorreu na Malásia. Hoje mesmo assisti Fábio Seixas remetendo a uma possível ordem da Red Bull para que Mark Webber diminuísse o giro de seu motor a um nível inferior ao que teria sido pedido para Vettel. O que muda simplesmente tudo! Mas não foi sequer comentado nos referidos veículos de comunicação. Que insistem em atacar Vettel e, em casos mais agudos, a exigir sua punição.

    Nos últimos dias descobri algumas coisas interessantes sobre como encaro e sempre encarei a F1. De acordo com os dirigentes, sou um “purista”. Porque gosto de ver disputas encarniçadas na pista. Porque quero que sempre vença o melhor. Porque concordo com Eddie Jordan quando o irlandês afirmou, referindo-se a Felipe Massa, que o brasileiro era “bonzinho demais para ser campeão do mundo”, e por isso admiro pilotos obstinados na busca pela vitória. Com lealdade, entretanto. Com honradez. Por isso não gosto, sinceramente, de Alonso. Por tudo que você citou em seu texto. Mas isso não vem ao caso…

    Seguindo com meu raciocínio, sou “purista”, e puristas como eu têm sofrido bastante com a F1 ultimamente. Porque dos anos 2000 pra cá a F1 tem cada vez mais de negócio e menos de esporte. As quantias necessárias para manter uma equipe hoje em dia são absurdamente altas. Insanamente altas. Percebi o quanto são absurdas quando descobri que a HRT, aquele time que fazia pouco mais do que andar sempre nas últimas posições do grid, gastou nada menos do que 27 milhões de libras para se manter ao longo da temporada de 2012! Isso daria, por baixo, uns 60 milhões de reais. Para ser o saco de pancadas da F1? É um negócio/esporte muito caro! E isso acabou deturpando o circo.

    Um piloto hoje não corre mais na F1 se não trouxer muito dinheiro para a equipe. Vimos isso recentemente, com o caso de Luiz Razia. O bom piloto Kamui Kobayashi conseguiu arrecadar 25 milhões de dólares com seus fãs e ainda assim não conseguiu um lugar para correr. Um piloto pode ser o que for, se não tiver muito dinheiro, nada feito. Daí vermos um Chris Horner dizer, em entrevista à Sky Sports, que disputas na pista são boas, são desejáveis, mas que ele tinha que pensar nas 600 pessoas que trabalhavam para o time. Pôxa, até os anos 90 essas 600 pessoas trabalhariam para ver um piloto do time campeão, não o contrário! Com a notável exceção da Ferrari, claro. Mas nos anos 90 pilotos recebiam para correr, e não o contrário. Trata-se de uma inversão de valores tremenda, que hoje é entendida como normal no meio da F1. Afinal, se o piloto tem que pagar para correr, independente do quão bom seja, fica óbvio que nas engrenagens da equipe ele não é mais a peça mais importante.

    Mas aí veio Sebastian Vettel e sua desobediência! Um piloto mandando às favas essa lógica empresarial, lembrando a todos que se algo der errado na pista quem irá se machucar será ele! Que é absurdo falar em igualdade de condições entre dois pilotos que são companheiros há quatro anos, sendo que em todos um sempre foi melhor que o outro! E que a F1 de hoje tem dinheiro demais, tem rádio demais, e tem campeões de menos! Mas que estes ainda existem. Por isso que na verdade estou mais empolgado que nunca com a F1. Porque descobri mais um verdadeiro campeão.

    Os ingleses criticam Vettel porque nunca tiveram um Senna ou um Piquet. Simples assim. Dois verdadeiros campeões que jamais se dobrariam a ordens de equipe. Afinal quem não se lembra de Piquet chamando sua Lotus de carroça em frente às câmeras? De Senna barganhando com a Mclaren até o último minuto por um contrato favorável em 1993? Isso seria possível hoje? Certamente não! Mas hoje tampouco seria possível termos dois pilotos do calibre deles na categoria máxima do automobilismo. Não por falta de habilidade, obviamente. Mas por falta de se dobrar ao negócio que teima em disputar espaço com o esporte na F1.

    Mas se não temos hoje um Senna ou um Piquet na F1, um Villeneuve (o bom, legítimo, não a cópia que acabou campeã por um simples acaso do destino), um Lauda, ainda temos Vettel. E por isso a F1 ainda vale a pena, e é fantástica! Os ingleses dizem que este alemão não sabe ultrapassar. E mesmo assim ele fez o que fez em Interlagos no ano passado, inclusive tocando rodas com um certo companheiro de equipe que, na ocasião, também estava desobedecendo ordens expressas da equipe. Deixemos os ingleses. Deixemos aqueles que não são puristas, porque eles simplesmente não entenderam ainda a beleza do esporte. É plenamente possível a convivência entre os interesses do piloto e os da equipe. Mas em tempos de segurança máxima na F1, é fácil esquecer que se algo der errado, é o piloto – e não Bernie Ecclestone, Chris Horner ou Ross Brawn – quem irá se machucar. Provavelmente morrer. Como já tivermos a desgraça de assistir, em um episódio doloroso demais para ser rememorado. Quer torcer para um time? Existem outras categorias que permitem isso. Adoro o World Endurance Championship, no qual torço para a Audi, sem nem saber direito o nome de seus pilotos!

    A F1 é lugar para heróis e suas máquinas. E não para máquinas e seus heróis. Defendo isso. Gosto disso. Quero isso. E é isso que Vettel demonstrou querer também. Por isso sou purista! Por isso torço, agora, por Vettel. E por isso que passei a amar um pouco mais a F1 depois do último GP da Malásia!

    • Lauro says:

      Clap, clap, clap Vitor! Agora já sei quem pode cobrir minhas férias aqui no site!
      Amigo, você foi sensacional no seu comentário, se é que este texto merece apenas este adjetivo simples. E, fazendo minhas as suas palavras, também concordo com tudo que você disse.
      A parte financeira, os pilotos desobedientes, a mídia que massacra sem o cuidado da informação correta, e por aí vai.
      Não tenho a felicidade de ver a Fórmula 1 por outra emissora internacional, mas este ponto de vista sem o “pachequismo” que temos que engolir sempre deve ser bem interessante.
      Eu refleti também sobre o que você disse sobre decepção. Pois bem; Vettel subiu no meu conceito, apesar de eu ter achado um erro com a equipe e com Webber como citei, mas ele quebrou a mesmice. Os demais pilotos envolvidos, continuam com o mesmo conceito, e o único que pode subir é Rosberg se der o troco em meio a contrariedade da equipe (leia-se Ross Brawn).
      A minha decepção é com o comando das equipes, em direcionar quem vai beber o champanhe, quem vai levar para as estatísticas a vitória (e vencer na Fórmula 1 é para poucos). As justificativas então, as mais descabidas possíveis.
      E as viradas de casaca né?! Assim que a corrida acaba vem alguns dizendo absurdos sobre Vettel, sobre esse ou aquele, aí no dia seguinte, vem a sessão “veja bem”…
      Mas não se preocupe, a minha paixão pela Fórmula 1 continua muito além disso, principalmente porque tive a oportunidade de ver pilotos memoráveis e o surgimento de mais alguns, dentre eles este molequinho travesso, talentoso, divertido e, agora, transgressor. Espero que ele não se sinta arrependido do que fez, pois isso sim pode lhe desestabilizar.
      Vamos para os próximos capítulos Vitor.
      Obrigado pelo seu comentário e sempre que quiser apareça por aqui!

      • Vitor Marcos Gregório says:

        “Molequinho travesso, talentoso, divertido e, agora, transgressor”. Adorei sua definição do Vettel! Se fosse meu filho levava umas chineladas! Como não é, ganha minha torcida, hehehehe

        E eu continuo não achando que ele pisou na bola. Principalmente com Webber. Quem perde do companheiro por quatro anos e tenta arruinar o título dele na última corrida da temporada deve saber que coisas assim podem acontecer. Está se fazendo de vítima, na minha opinião. Nada mais do que isso. E também torço demais para que Vettel não se arrependa!

        E pode deixar que vou continuar frequentando o blog sim. Na verdade já o frequento a algum tempo, mas só agora resolvi comentar. E quanto a cobrir suas férias, estou à disposição, uai! Conteúdo não irá faltar, hehehehe.

        Abração

  10. Li com interesse redobrado cada comentário a partir do fabuloso artigo do Lauro. Parabéns Lauro, Vitor e demais comentaristas…
    Como minha participação gostaria de dizer que jamais aceitei a “teoria da conspiração” e portanto desejo do fundo de minha alma de torcedor de F1 que estes “tolos manipuladores” continuem a ver o tiro sair pela culatra como Vettel fez acontecer!!! hahahahaha

    • Lauro says:

      Obrigado pelas palavras Roberto! Realmente o pessoal que comenta é muito bom, e temos que promover o debate, a troca de idéias, sempre.
      Valeu!

  11. Fábio Cristófaro says:

    E se limitassem as conversas via rádio? Apenas o piloto poderia falar com a equipe, informando as condições do carro e quando seriam as paradas e a equipe apenas comunicar situações ligadas à segurança, como por exemplo mandar recolher ou aviso de bandeira amarela. Deixar os pilotos decidirem como administrar o equipamento de acordo com o que estão sentindo na pista seria muito mais empolgante e valorizaria o esporte.

    • Lauro says:

      Uma boa idéia Fabio, mas a equipe deve (e pode) se comunicar com o piloto durante a prova. Eu disse que se voltassem as placas na mureta dos boxes poderia ser uma solução. E seria interessante ver como elas voltariam, digitais, com patrocínios, etc.
      Um abraço.

  12. Ricardo "Pizza" Barbieri says:

    Lauro,
    Vou botar lenha na fogueira. Não nego, cresci me divertindo com os pegas do Senna com o Prost e do Piquet com o Mansell. Mas acho que o nome já diz, “equipe”, tem que trabalhar em conjunto para ganhar o campeonato. Como nas equipes de ciclismo, em que um grupo enorme trabalha para que apenas um vença, também é a equipe de Formula 1, inclusive engenheiros, mecânicos, etc. Acho que deveria ser tudo aberto – se a equipe quer que o piloto A chegue na frente do B eles é que decidem, acho totalmente válido o jogo. Acho que deveriam falar abertamente no rádio, nas sinalizações, não ficar mandando um pro box primeiro que o outro ou usando códigos. Jogo aberto. Se eu tivesse uma equipe eu ia trabalhar para ter sempre uma dobradinha 1o e 2o, e deixaria bem claro quem é o primeiro e quem é o segundo piloto. O mais rápido seria o 1o e o mais duro de ultrapassar o 2o e boa, desde o primeiro GP do campeonato. Se não, só com 1 carro por equipe mesmo.

    • Lauro says:

      Pizza,

      Muito interessante seu ponto de vista, ainda mais quando cita o ciclismo que é, para mim, um esporte coletivo. Mas a Fórmula 1, que ainda é muito contestada sobre se é ou não esporte, é uma categoria individual, e mais, individualista.
      Sua maneira de ver é absolutamente lógica, agora, olhe o exemplo da Ferrari de hoje: Massa é mais rápido que Alonso e Alonso é um osso para ser ultrapassado, ou seja, pela lógica, se você fosse Domenicalli, Massa disputaria o título este ano. Só que sabemos que não é assim.
      Vi esse jogo, esta estratégia, no GP do Japão de 91 quando Senna deixou Berger ir embora e ficou segurando Mansell, até que o Leão fugiu (pela área de escape).
      Um carro por equipe é algo estranho demais, mas talvez funcionasse. Se da mesma equipe com pinturas diferentes já é complicado, imagine um carro só. Mas aí ainda teria aquela camaradagem do tipo: meu motor no seu carro só com sua ajuda, ok?
      É a individualidade de uma categoria extremamente competitiva.
      Valeu pelo comentário e por colocar mais lenha no forno, quer dizer, na fogueira. Esperamos mais pizza por aqui.
      Abraço.

  13. Lauro says:

    Pessoal,

    É impressão minha ou esta troca de idéias tem sido muito rica, não só em quantidade de participações, mas também em qualidade, em argumento?

    Acho que subimos mais um degrau, portanto, obrigado pelo empurrão.

    Abraços.

  14. Cristiano Mazeto says:

    Comentários e texto de alto nível aqui. Li atentamente a todos os comentários e ao bom texto de Lauro, todos miram em Vetel como o garoto desobediente mas será que nao pode ter sido um complo da equipe contra Weber e td nao passou de um grande teatro da equipe e Vetel, porque todos sabem que a estrela da equipe e o alemão…… Afinal falamos de F1 onde ate o Vaticano se assustaria com os segredos que esse círculo esconde… Parabéns Lauro por ser tão sensato e com conhecimento claro e preciso.

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